É esta a arte de Gustavo Drago (autor de Relíquia - Caminhos de Um Templo Egípcio) para o novo suspense policial O Reverso do Destino. Ficou lindona, não? rsrsrs... Pois é, espero que a trama agrade aos leitores tanto quanto esta capa tem agradado. Temos recebido muitos elogios, apesar de as pessoas ficarem intrigadas com certos elementos "estranhos" inseridos na bela paisagem.
Àqueles menos atentos sugiro que girem a capa, rsrsrs. Ela carrega muito da complexa trama e isto me deixou super satisfeita. Era o resultado almejado. Para quem ainda não leu a sinopse, ei-la:
SINOPSE
Você acredita em destino?
Laura é uma sedutora mulher que se candidata a um emprego de babá. A tradicional e imponente família Lutz é o alvo de um crime, onde Laura desempenha importante papel. Tomando conta de uma criança triste e carente, ela descobrirá que a família visada não é tão respeitável e que esconde segredos inimagináveis. E aí, caça e caçador começam a se confundir.
Mais uma vez, o policial civil Douglas Ferreira e seu parceiro Renato se envolvem em uma investigação que lhes revelará o quanto as pessoas mais insuspeitas podem ser sórdidas e diabólicas. Além de investigar o desaparecimento de uma menina e as razões de um suicídio, naquela mesma família, Douglas descobre novos crimes envolvendo os Lutz. Ele se depara com seu caso mais incomum de serial killer e, pra dificultar mais o seu trabalho, enfrenta outros inimigos mais perigosos: seus colegas de profissão!
Neste segundo thriller policial, Fernanda Borges continua surpreendendo o leitor com personagens ambíguos, reviravoltas e muito, mas muito suspense e mistério. O Reverso do Destino aborda crimes cruéis, revelações bombásticas, traições e as várias facetas do destino de uma pessoa.
QUEM COMANDA OS PRÓPRIOS ATOS TORNA-SE MESTRE DE SEU DESTINO.
OBS.: este livro contém spoilerdo romance policial Orgasmos Fatais, embora não seja uma sequência propriamente dita e tampouco tenha sua trama amarrada à do primeiro livro.
A previsão de lançamento é para julho deste ano, pela Alcantis Editora. Quando tiver novidades eu posto para vocês, OK?
Passou-se uma semana, já estava no mês de março e Douglas ainda não havia conseguido ouvir o casal vizinho de Mary. Eles estavam com uma pessoa doente na família e pediram alguns dias para que ambos pudessem ir à delegacia. Era uma sexta-feira, Douglas estava de folga e decidiu iniciar uma série de pesquisas, pois até então não tivera a menor vontade de ir além de seus limites. O caso Mariana era um dos 200 e poucos que tinha sob sua responsabilidade. Com mais de vinte e cinco anos de polícia, ele sabia que quanto mais se dedicassemais se decepcionaria. Foram muitos casos concluídos com sucesso, muitos réus no Tribunal do Júri condenados com louvor, com base em suas investigações e no trabalho em equipe muito bem orquestrado que tinha com seus parceiros. Porém, também foram muitos casos arquivadospor motivos diversos, sendo um deles a falta de interesse, além do medo das testemunhas, da má-vontade, entre outros.
Douglas começou a se lembrar dos tempos quando a polícia investigavapra valer, tinha mais autonomia em suas ações, os delegados não apenas vestiam terno e gravata e davam ordens sem se comprometerem com o que faziam os seus subordinados; eles efetivamente lideravam as diligências executadas pelos agentes policiais, muitos até eram mais operacionais e delas participavam ativamente. Aí, era impossível não comparar aquelas autoridades policiais, não extintas, mas escassas, com os doutores “Leandros” da vida.
Este era um rapaz ainda novo, tinha seus trinta anos não muitovividos, era nítido. Como muitos que ingressavam naquela nobre carreira, Leandro passou a vida estudando e mal saiu da faculdade de Direito, já estava fazendo cursos preparatórios para o concurso que prestara. Fora o fato de que ele não trabalhava ainda naquela época, o que lhe dava tempo de sobra pra estudar em casa. Sim, ele tinha conhecimento jurídico, sem dúvida, mas veia policial... não, ele não tinha. Infelizmente, ele não fazia parte de uma minoria e isto entristecia os policiais mais antigos, como Douglas.
Certa vez, um perito contou a Douglas e a outro parceiro, que ele havia chegado a um local de homicídio e a arma do crime era uma faca de cozinha. Por sorte, o autor não tinha se desfeito do instrumento, que foi identificado próximo ao corpo da vítima, um homem. Entretanto, em razão de um engarrafamento, os peritos haviam chegado um pouco depois dos agentes policiais, que eram liderados por uma delegada. Quando o perito chegou ao local e pediu a arma do crime para lacrar, a autoridade policial, com unhas incrivelmente bem pintadas e mãos de fada, lhe apresentou sobre um saco plástico duas facas ensanguentadas. Preocupada em não sujar as unhas de sangue, ela pegou outra faca na cozinha da vítima, para poder passar a faca utilizada no crime para cima do plástico. Só que depois, ela esqueceu qual daquelas era a arma do crime.
Douglas ria sozinho enquanto se lembrava do caso e ligou seu notebook, pretendendo intimar logo a tal da Daniela. Ele teria feito issologo, se não estivesse assoberbado de serviço. E como não tinha muita confiança nas pessoas, não pediu a outros colegas que pesquisassem, afinal de contas, já tinha visto muita coisa errada na instituição e não queria que atrapalhassem a sua linha de investigação. Além disso, ele esperava saber mais coisas sobre Daniela através do próprio Rodolfo. Porém, devido à função comissionada que este exercia junto ao Governador, estava difícil encontrar um horário para ouvi-lo. E Rodolfo, também, não parecia fazer muita questão de ajudar, embora tivesse dito por telefone que colaboraria no que fosse preciso.
O inspetor iniciou suas buscas nos órgãos oficiais de identificação e encontrou uma Daniela Diaz Vidal, nascida aos seis de novembro de 1974. Escorpiana, ele pensou. Mas seu registro era antigo, não havia foto e ela ainda era estudante na época em que tirou sua carteira de identidade. Porém, como parecia ser a única com aquele nome e faixa etária, Douglas partiu para uma busca no clube de diretores lojistas, encontrando a mesma Daniela. Esta fizera uma compra em um estabelecimento comercial no bairro de Botafogo, há um mês. A partir desta informação ele conseguiu seu endereço atual e telefone: ela morava no bairro de Lins de Vasconcelos.
Antes de entrar em contato com a mesma, Douglas resolveu dar uma olhada em seu perfil do Facebook, mas nada de relevante encontrou ali. Decidiu procurá-la no Orkut e realmente ela tinha um perfil nesse site, com a mesma foto distante do Facebook. Ela tinha recados e fotos trancados, como a maioria das pessoas costumava fazer para manter certa privacidade. Mas, Daniela gostava de entrar em comunidades, tinha umas duzentas... e Douglas passou a olhar uma a uma, encontrando umas totalmente estilo pastelão, o que o fez pensar que aquela mulher parecia ser uma criança grande, alguém com senso de humor bastante aguçado. Entretanto, como sempre ia até o fim no que fazia, Douglas começou a perceber também que Daniela talvez não fosse tão animadinha assim. Alguns títulos de comunidades que lhe chamaram atenção foram: “Pareço legal, mas sou psicopata”, “Quero que minha rival morra”, “Desculpe, eu não tenho princípios”,“Adoro armas brancas”, “Morte aos meus inimigos”, “Frio e calculista”, “Eu não sinto culpa”, dentre outras comunidades do gênero.
— Essa mulher é maluca — disse ele para si mesmo, surpreso como uma pessoa poderia se expor tanto assim.
Outras comunidades, sobre práticas sexuais inusitadas, também figuravam na lista. Mas ele não conseguiu descobrir onde e nem em que Daniela trabalhava; ela não estava em qualquer comunidade que lhe desse uma pista. Então, Douglas resolveu telefonar para o número que constava no cadastro que havia descoberto, era um número residencial e que parecia ser realmente, pelo prefixo, daquele bairro ou adjacências.
Eram quase cinco horas da tarde e estava um calor escaldante no Rio de Janeiro. Douglas tomou uma ducha e, ainda enrolado na toalha, pegou o telefone para ligar para a tal Daniela. Deu uns três toques e logo uma voz jovem e feminina atendeu. Douglas perguntou por Daniela:
— Quem quer falar com ela?
— Douglas... Daniela? — perguntou ele, acreditando falar com a mesma.
— Não, aqui é uma amiga dela. Você quer deixar algum recado?
— Não obrigado. Você sabe me informar a que horas a sua amiga chega?
— Bem, ela não disse... mas costuma chegar do trabalho lá pelas sete horas, no máximo.
— Então eu ligo mais tarde, obrigado.
— Por nada — a mulher tinha uma voz simpática.
— Ah, desculpe, mas qual é o seu nome?
— Pode me chamar de Kika — disse ela e deu um riso.
— “Kika”?
— É. Eu vou dizer que você ligou. Douglas de onde mesmo?
— Ela não me conhece, mas pode deixar que eu vou retornar a ligação. Muito obrigado mesmo, “Kika”... Tchau.
— Tchau, tchau — ela desligou, sem demonstrar qualquer preocupação com aquele telefonema.
Mal ele desligou o telefone e este tocou, lhe dando um susto. Douglas detestava telefones, mas sabia que estes eram um mal necessário. Era Luiza, sua namorada. Ele ficara viúvo há cinco anos e desde então morava sozinho, próximo a parentes, porém não quis mais casar. Sua esposa morreu de um ataque cardíaco fulminante e em todos os anos de casamento a mesma jamais quisera ter filhos. Douglas adorava crianças, mas agora achava que já tinha passado o tempo de ser pai.
Luiza queria dormir em sua casa, mas ele não estava nem um pouco inspirado. A namorada se tornava cada vez mais enjoada, uma pessoa sem conteúdo, na verdade. O que chamava muito a sua atenção em uma mulher era sua capacidade de surpreendê-lo, de enfrentá-lo até, e Luiza estava muito, mas muito longe disto. Quando ele querialhe contar seus casos bem-sucedidos, a namorada desconversava, parecia não entender nada do que ele falava e isto o vinha desestimulando. Estavam juntos há cerca de seis meses e em tão pouco tempo a mulher havia se tornado um estorvo. Embora ela fosse apenas cinco anos mais nova do que ele, que tinha 52, Luiza parecia uma adolescenteàs vezes. Ela não tinha maldade, parecia que vivia em uma bolha, totalmente alheia à realidade. E pra piorar, trepava mal.
Douglas inventou uma desculpa: disse que estaria de plantão e ela acreditou, mesmo cansada de saber que ele trabalhava em horário de expediente normal. Era incrível como ela não sabia diferenciar. Após se livrar de Luíza, ele deixou passar o tempo, enquanto assistia a um filme. Quando já ia telefonar para Daniela, o toque do telefone novamente o assustou. Luiza de novo, só podia ser. Ele atendeu, mas desta vez com a voz impaciente e ríspida:
— Alô!
— O Douglas está?
A voz era de Kika e ele estranhou.
— Sou eu — respondeu Douglas e aguardou, percebendo que outra pessoa pegava o aparelho para falar.
— Oi, aqui é Daniela. Você me ligou mais cedo — a voz feminina era diferente da voz de Kika; era uma voz meio preguiçosa e um pouco rouca, porém agradável.
— Ah, Daniela! Como você descobriu o meu número?
— Já ouviu falar em bina? — ela riu. — Mas, quem é você?
— Inspetor Douglas, da delegacia de homicídios.
— Sim? — Daniela reagiu naturalmente. Até parecia que esperava a ligação ou que estava acostumada a receber telefonemas daquela espécie. — Quem morreu?
— Como sabe que alguém morreu?
— É meio óbvio, não? Ou alguém quase morreu, sei lá... um policial da Homicídios e que não é meu conhecido, me telefonando... Só não imagino quem bateu as botas.
Douglas riu em silêncio, pois deu pra perceber o cinismo naquela voz mansa.
— Quando podemos marcar para ouvi-la?
— Quando me disser, ao menos, por que estou sendo convocada — disse ela, com um tom de voz mais sério. — Quem me garante que isto não é um trote?
— Se preferir, eu posso intimá-la pessoalmente.
— Como queira... é só isso?
Douglas percebeu que Daniela não era, nem de longe, uma tonta.
— Sim, sem problemas, eu farei a intimação então. Só mais uma coisa...
— Diga – ela disse.
— A senhora trabalha em quê?
Daniela deu um riso debochado, em tom baixo, mas o suficiente para ele ouvir. Depois ela respondeu:
— Bem, em primeiro lugar não sou senhora, sou senhorita. E depois, quando me conhecer pessoalmente, saberá mais a meu respeito, OK?
Douglas esfregou os olhos, um pouco irritado.
— Está certo. Então, até mais — disse ele, contrariado, porém sem perder o controle da situação.
— Tchauzinho — ela desligou.
Douglas não gostou do jeito educado, porém petulante, de Daniela e resolveu fazer a intimação naquele mesmo dia, ou melhor, noite. Ele tinha um modelo de mandado de intimação gravado em seu computador pessoal. Imediatamente, o policial redigiu o documento e assinou seu nome no campo próprio. Ele pegou o seu carro e foi até o endereço de Daniela. Pensava durante o trajeto que talvez tivesse se precipitado, pois em plena sexta-feira ela poderia sair à noite. Mas, como já estava na metade do percurso, resolveu arriscar mesmo assim.
Ele chegou ao local e avistou um prédio de apartamentos com varandas, cuja fachada era bonitinha. Tocou o interfone e identificou a voz da amiga de Daniela, que pediu ao mesmo que aguardasse um pouco. Douglas olhou para cima, mas não viu qualquer cabecinha curiosa espiando. Passados uns três minutos, no máximo, uma moça de cabelos castanhos claros, na altura da cintura, aparentando ter uns 28 anos de idade, com cerca de um metro e sessenta de altura, seios fartos e pernas grossas e trajando um vestidinho curto na cor amarela, desceu as escadas e abriu a portaria. O prédio não tinha porteiro, Douglas reparou, e não entendeu por que não abriram pelo próprio sistema de interfone. Parecendo ler seus pensamentos a jovem disse, sorrindo:
— Eu sou a Kika, lembra? O interfone está com problemas, não dá pra abrir lá de cima.
— Ficou cansada? — ele referia-se ao fato de ela ter descido as escadas correndo.
— Não, ela mora no segundo andar... é rapidinho.
Douglas, então, seguiu Kika, que subia correndo as escadas. Ela o convidou a entrar e pediu que aguardasse, pois Daniela estava saindo do banho.
Ele aproveitou para observar o local, a decoração do apartamento... queriaver se captava algo da personalidade de sua envolvida. O ambiente era aconchegante, tinha uma decoração clean, com móveis brancos ou muito claros e cortinas não muito compridas; o piso era cor de gelo e não tinha carpete ou tapete; as paredes eram pintadas em um tom de pêssego, que era o que dava vida ao ambiente, combinando com os quadros. Havia um grande na parede principal, retratando um belo sistema solar, com símbolos astrológicos e planetários, que chamaram a sua atenção. Em outra parede, um quadro menor ilustrava o que parecia ser uma corrida de carros, mas havia personagens ao redor; era algo confuso e que parecia retratar um acidente, mas ele não tinha certeza, pois olhava tudo com um pouco de pressa, antes que Daniela entrasse na sala. Em uma estante de pedra clara havia caixas de DVDs de filmes e uns dois porta-retratos discretos. Mas, quando se aproximou para olhar as fotografias, uma mulher enrolada em uma toalha branca e com os cabelos úmidos, entrou na sala, desconcertando completamente o policial.
— Oh, desculpe! Achei que a Rachel o tivesse levado até a copa — ela sorriu, sem se importar em ser vista daquele jeito. — Garota bitolada.
— Tudo bem, se quiser posso esperar até se vestir — disse Douglas, sério, evitando olhá-la muito.
— Besteira, não se preocupe. Estou bem assim — ela fez um gesto indicando o sofá para o policial, que já não conseguia esconder sua perplexidade diante daquela falta de pudor. E o pior é que, mesmo instintivamente, ele começoua observá-la. Era inevitável mesmo e concluiu que era uma mulher bem bonita. Era mais alta do que Kika, cujo nome agora ele sabia ser Rachel. Daniela deveria ter uns dez centímetros a mais do que a outra, pele bem clara, olhos azuis, cabelos louros um pouco acima dos ombros e um corpo bem definido. Pareciamalhar, era definida sem ser musculosa. Ele notou também algumas equimoses jáesverdeadas em suas pernas e braços, mas não quis que ela percebesse.Daniela segurava uma toalha menor em uma das mãos, o que o impedia de ver se ela tinha algum ferimento naquela parte do corpo também.
Logo, ela se sentou no sofá. Douglas continuou em pé após se identificar como policial, já lhe estendendo a intimação, quando ela pediu que o mesmo se acomodasse.
— Eu estou um pouco cansada, tive um dia agitado, sabe? Deixe-me ver aqui... — ela pegou a intimação, leu e deu um sorrisinho. — Pra variar o delegado não assinou, não é mesmo?
“Pra variar?” pensou Douglas, atento. Daniela parecia saber que isso era uma constante na rotina policial.
— Não, eu estava em casa quando redigi o mandado, mas se quiser eu volto depois com a assinatura dele — Douglas já estava desanimado, imaginando que tinha saído de casa à toa, em plena sexta-feira à noite.
— Imagina, foi só um comentário – disse ela em tom compreensivo. — Rachel faz um favor, pega minha identidade! — Daniela pediu à amiga, enquanto passava recibo na outra via do mandado. Ela era observada atentamente pelo policial, que não percebia qualquer curiosidade ou nervosismo em seu semblante. — Eu não faria uma maldade dessas com um policial tão honesto, que sai na sua folga para trabalhar — ela levantou os grandes olhos para encará-lo rapidamente.
— Por que diz que sou tão honesto? Nem me conhece — Douglas achava que aquela mulher estava debochando dele e isso já o aborrecia.
— Ora... qualquer outro, na falta do delegado para assinar, teria “baixado o santo”, não é mesmo? — ela olhou nos olhos dele, séria... e quando Douglas ia perguntar como ela sabia da expressão “baixar o santo”, muito usada pelos policiais que assinavam no lugar de outros policiais ou de delegados, Rachel entrou na sala rapidamente, com a identidade de Daniela. Esta última pegou o documento e o entregou a Douglas, para que ele anotasse o número no recibo.
— Bem, “senhorita” Daniela... eu agradeço a atenção e a aguardo na segunda-feira, sem falta — Douglas se levantou e caminhou em direção à porta.
— Não vai me dizer por que estou sendo chamada? — perguntou Daniela com uma expressão jovial, porém indiferente.
— Quando estiver sendo ouvida em sede policial, você saberá mais a respeito... OK? — respondeu Douglas, encarando-a firmemente, satisfeito por poder retrucar à altura a resposta que ela lhe dera por telefone.
Daniela apenas franziu, displicentemente, as sobrancelhas bem desenhadas e se despediu:
— Tudo bem... eu aguento até lá.
Douglas desceu as escadas com Rachel, que novamente abriu a porta do prédio. Então, curioso, antes de entrar no carro ele perguntou à moça:
— Você mora com a Daniela?
— Não, estou aqui só passando uns dias. Eu me aborreci com o meu pai e aí ela me convidou pra ficar aqui... para esfriar a cabeça, sabe?
— Claro. E sua amiga parece ser bem cabeça fria, não é?
— Nos momentos certos ela é sim — respondeu ela. E pela primeira vez a moça olhou seriamente para o policial, perdendo aquele ar ingênuo.
— Sei... — Douglas fez uma pausa. — A propósito, por que te chamam de Kika? Rachel é tão bonito.
— Porque eu acho Rachel feio — ela riu e quebrou o gelo de novo.
Então, Douglas entrou em seu carro e olhou para a varanda do apartamento, avistando Daniela debruçada. Ela ainda estava enrolada na toalha, observando ele entrar no veículo. Douglas acenou para a loura, que retribuiu o gesto, e depois ele parou no primeiro bar que encontrou, pois precisava beber algo. Douglas sentia calor e nada melhor do que uma boa loura gelada para fechar aquela noite um tanto incomum. Uma loura gelada pra apagar o fogo causado por uma loura molhada... Quente, talvez.
Enquanto isso, Daniela se arrumava e aguardava Rachelsubir. Esta última estava curiosa demais para saber o que a amiga havia conversado com o policial. Rachel ficara aguardando no quarto de Daniela, enquanto esta atendia o agente. Como ambos falavam em tom baixo, Rachel não conseguiu ouvir muita coisa da rápida conversa que tiveram.
Daniela já estava vestida com um baby-doll e como não tinha nada de muito bom para fazer naquela noite — aliás, como o próprio inspetor também não tinha —, resolveu ficar em casa. Ela estava sentada em sua cama e ria enigmaticamente para Rachel, que a observava secar os cabelos. Daniela sabia que a amiga se corroía de curiosidade.
— Porra, não vai me contar? – Rachel perguntou.
— O quê?
O barulho do secador deixava Rachel mais agitada.
— Quem descobriu o Brasil, cacete! — disparou ela ironicamente, recebendo uma resposta mais irônica ainda.
— Dom Pedro I... Ah não, foi aquele cara que colocou o ovo em pé... — e caiu numa gostosa gargalhada.
— Palhaça!
— Bem, na verdade ele não quis adiantar nada... — respondeu enfim Daniela. — Acho que ficou contrariado porque eu o fiz vir até aqui.
— Ele tem um jeitão sério, né?
— Ele tem jeito de macho, querida — observou Daniela e deu um olhar enviesado para Rachel. — Desses em extinção, sabe?
Rachel agora também estava sentada na cama de Daniela, que bebia uma dose de uísque com gelo, enquanto a amiga bebia uma cerveja no gargalo. Kika era muito engraçada, tinha um jeito de adolescente, apesar de seus vinte e sete anos, e era muito amiga de Daniela... confidente mesmo. Sim, Daniela sabia de muitas coisas a seu respeito e nunca lhe negara ajuda em momentos difíceis, tão logo se conheceram. Problemas familiares: um irmão paterno que Rachel odiava e que teria sido a causa da separação de seus pais. Este, que havia morrido em um assalto mal explicado, há cerca de dois anos, acontecimento que gerou um mal-estar entre Rachel e seu pai. Apesar de o caso ter sido encerrado sem a descoberta da autoria do suposto latrocínio, Rachel sabia que seu pai cogitara da hipótese de a própria filha ter mandado matar o “bastardo”, como ela costumava se referir ao obeso Paulo. O rapaz, oito anos mais novo do que Rachel, era uma presença insuportável e constante em sua vida. Parecia que ele, ciente de que provocava as piores sensações na irmã, fazia questão de ser lembrado por ela. Foi comentário duradouro na família de Rachel, a reação desta quando soube da morte de Paulo: a jovem saiu para comemorar com os amigos, em uma boate badalada. Simplesmente, ela justificou sua atitude da forma mais natural possível: “eu não gostava dele, isso nunca foi segredo pra ninguém!”.
Daniela se lembrou naquele momento desse episódio. Ela gostava do jeito de Rachel, pois também era assim. Aliás, parecia que ambas gostavam muito de chocar as pessoas com suas atitudes e reações inusitadas, de falar a verdade nos momentos mais inapropriados e, talvez por isto, elas se dessem tão bem. Mas, Daniela costumava dizer para Rachel que “às vezes, mentir é preciso... é uma questão de sobrevivência!”.
— Você é muito vadia, hein! O que deu na sua cabeça, pra atendê-lo enrolada naquela toalha? — Rachel chamou a atenção de Daniela.
— Ué, estou na minha casa! Se ele não suportou a cena, não posso fazer nada — ela bebeu mais um gole de uísque e riu. — Kika, ele ficou sem reação... e não sabia onde enfiar a cara. Foi hilário!
— E eu perdi isso — Kika jogou-se de costas na cama.
— Ah, e eu botei a culpa em você — Daniela apontou para Rachel.
— Em mim? Explica essa porra direito!
— Eu me fingi de desentendida e pedi que ele me desculpasse, porque era pra você tê-lo levado até a copa, oferecido um café, sabe como é... Mas eu acho que ele não acreditou — disse Daniela, tendo uma sucessão de risos, acompanhada da outra, que também se divertia com a situação.
— Quando é que você vai depor? — perguntou Rachel, virando-se de bruços rapidamente e olhando curiosa para a amiga.
— Na segunda-feira.
— Já? Ele está na gana mesmo, hein.
— Problema dele! Eu não estou nem aí. Mas é melhor porque já resolve logo, entende? Ele parece ser um policial sério. E dos bons — ela brincava com o gelo dentro do copo.
— Eu vou dar uma saidinha... você vai ficar de “molho” em casa?
— Vou. Hoje eu não estou a fim de badalação. Você vai se encontrar com a Deborah?
— Provavelmente.
— Não se esquece de pegar o DVD com ela, tá?
— E você acha que eu iria esquecer? — Rachel arregalou os olhos, mostrando tanto interesse quanto a outra no assunto.
— Não, claro que não. Mas é que eu quero guardar logo. Você sabe que a Deborah não é lá muito cuidadosa em guardar as coisas e algo me diz que vou precisar daquele vídeo tosco. — Daniela fez uma careta e riu.
— Você sabe que se precisar usar pode dar merda, não sabe?
— Quem mandou ele ser burro? E outra coisa: você sabe que odeio que me ameacem e ainda mais em se tratando de um imbecil daqueles. Só vocês duas mesmo pra encarar aquele projeto de homem!
— Ah, já foi... fazer o quê? Me deixa ir, que meu gostoso está me esperando — disse Rachel, referindo-se ao namorado.
— Divirtam-se — desejou Daniela. Ela esperou a amiga sair e se deitou, sem conseguir pegar no sono. Estava apreensiva, pois não sabia o que teria que encarar dali pra frente. Mas, ao mesmo tempo, situações inusitadas como aquela a faziam vibrar. Daniela precisava sempre de algo em sua vida que a tirasse do tédio, ela gostava de fortes palpitações. Porém, ela precisava dar uma relaxada, esfriar bem a mente e, normalmente, fazia isso de duas formas: dormindo ou indo à praia. Como o sono não vinha logo, ela se adiantou e começou a arrumar sua bolsa de palha para passar o tempo; pretendia curtir o mar na tarde do dia seguinte. Daniela gostava de olhar o pôr-do-sol e, além disso, como tinha a pele muito clara, preferia o sol “moribundo”, como costumava dizer.
Enquanto arrumava sua bolsa, Daniela não poderia imaginar que certo policial também não conseguia dormir. Ou poderia? Fato é que Douglas estava muito mais dedicado a trabalhar naquela investigação agora, embora não tivesse parado para se perguntar por quê. Era mais um homicídio em sua carreira; e ele já havia solucionado tantos outros, atémais violentos, pelos mais variados motivos. Não havia nada ali de tãodiferente: uma bela vítima, uma inimiga apontada ferozmente, por familiares da primeira, como sendo a autora, uma arma do crimedesaparecida, falta de recursos de trabalho, testemunhas escorregadias, alguns colegas desinteressados — se bem que Luiz era interessado, masera só um garoto ainda.
Douglas estava acostumado com colegas mais experientes, que desenvolviam uma linha de investigação coerente e completavam o seu trabalho. Luiz, por sua vez, estava em sua fase embrionária na polícia, o estágio probatório. Além de nenhuma experiência, ele tinha medo de tomar atitudes, pois sua situação no cargo ainda não era estável e ele contava com o mesmo, já que estava prestes a se casar. Mas, ao menos, ele era esforçado. E, ao contrário do delegado Leandro, não atrapalhava o bom andamento das investigações.
E Douglas seguia a noite sem conseguir dormir, mesmo após ter bebido tanto. Como o sono não vinha por nada, ele aproveitou para fazer suas pesquisas. O policial procurou informações sobre o namorado da vítima, o que não foi muito difícil de encontrar. Sem anotações criminais e aparentemente uma pessoa comum, exceto pelo fato de estar ligado a uma autoridade política estadual, formado em Direito e Jornalismo, Rodolfo tinha 57 anos de idade. Isto chamou a atenção do policial, já que o assessor do Governador namorava uma mulher mais nova do que ele vinte e cinco anos.
Ele tinha uma história interessante: quando jovem, chegou a ser sequestrado pelos militares, juntamente com jornalistas formados e esquerdistas atuantes, quando ainda era um estagiário. Pelo que Douglas leu naqueles arquivos, Rodolfo não chegou a passar por torturas ou algo assim, mas parecia ser um profissional politicamente correto e cheio de ideais. Ao menos em tese.
Douglas não queria se aprofundar muito na história de Rodolfo naquele momento, pois ainda teria que conversar com outras pessoas. O caso estava só começando e ele sabia que a paciência era fundamental para se chegar a um resultado positivo. O mal de muitos colegas era a precipitação, os “adoradores de bodes-expiatórios”, como ele costumava defini-los. Prender um inocente poderia ser algo tão ou mais violento e injusto do que o próprio crime, pois o responsável por tamanho equívoco, ainda que de forma inconsciente e involuntária, acabava se tornando um cúmplice do culpado. Isto era tudo o que Douglas mais abominava: ajudar a absolver um culpado, à custa da liberdade de um inocente.
Ele também não sentia muita veracidade no que a mãe da vítima lhe dissera. Douglas precisava confirmar com os vizinhos que presenciaram a cena. Havia algo naquela mulher, uma senhora loura, bonita e bem conservada, que se vestia como uma mulher mais jovem, que incomodava muito o inspetor. Era evidente que ela sofria muito com a morte da filha; mas ao mesmo tempo dava a impressão de que queria vingança e não justiça, se é que poderia existir uma diferença substancial entre uma coisa e outra. Douglas analisava os fatos e tinha certeza de que Isadora estava mentindo, provavelmente para proteger algo que envolvia a memória ou a reputação de sua irmã mais velha. Não que isto fosse algo assim tão grave, mas ele sabia que não existiam mentiras inocentes, principalmente em uma investigação criminal.
E havia também a apontada suspeita: Daniela... que mulher estranha... ele se lembrou dela, comparando sua atitude inicial ao telefone, séria efazendo questão de uma intimação formal... depois, já em seu apartamento, atendendo um agente policial, enrolada numa toalha e ainda toda molhada.
— Ô estranha gostosa! — ele disse em voz alta, como se conversasse com um amigo imaginário. E Douglas começou a reconstruir a imagem da mulher loura, que naquela ocasião estava descalça; ela era mais baixa do que ele uns cinco centímetros e tinha formas muito bem feitas... voluptuosas até. Sem dúvidas, era bastante feminina. Ele achou seus pés bonitinhos; na verdade, ela tinha pés muito bem feitos e usava tornozeleira, o que valorizava aquela área de seu corpo, feia na maioria das pessoas.
O seu lado homem nunca adormecia. Ele pensava: mas até um defunto levantaria, diante daquela cena que eu presenciei! E a toalha era curta, pra piorar. Porém, o lado policial parecia brigar em pé de igualdade com seus instintos mais primitivos. Imediatamente, ele se lembrou das equimoses que vira nas pernas e braços de Daniela. Eram em pontos variados, não parecia que ela tinha batido em algum móvel ou algo assim. Foi inevitável para ele imaginar que ela tivesse entrado em luta corporal com alguém. Ele se lembrou de que a vítima tinha um metro e oitenta de altura e não era magrinha, mas estavarecém operada. E, apesar de ser grande, Mariana não parecia ser adepta de exercícios físicos como Daniela. Esta, embora menor, talvez fosse mais disposta a um combate. Ele viajava em seus pensamentos... Mas, tais especulações eram pouco prováveis, já que o perito praticamente garantiu não ter havido luta no local do crime.
Definitivamente, Douglas não teria muito que fazer naquele final de semana, a não ser esperar. E tudo o que ele fazia ultimamente na sua vida era esperar. Esperava por muitas coisas: um filho que não veio, melhorias em sua profissão, conseguir parar de fumar, encontrar um amor de verdade... Enfim, há tempos ele apenas esperava.
No dia seguinte, conforme determinado pelo delegado Leandro, os policiais Douglas e Luiz aguardavam a chegada das primeiras testemunhas arroladas: o porteiro do prédio, Isadora e Mary, esta ainda bastante transtornada, porém disposta a colaborar na descoberta do assassino de sua filha. O velório seria naquela tarde, porém a família iria cremá-la, já que este era um desejo conhecido de Mariana.
A delegacia estava cheia de repórteres, pois embora a vítima não fosse uma pessoa notória, seu namorado exercia um cargo de confiança na estrutura do Governo do Estado — era assessor jurídico do Governador e não se sabia como, antes mesmo deste fato chegar à polícia, já era notícia velha na mídia.
Douglas esperava o delegado chegar enquanto observava as fotos tiradas no local do crime. Ele pensava como uma mulher jovem e bonita comoaquela, poderia ter sido assassinada daquela forma e o que teria motivado tudo aquilo. Ela parecia ser uma pessoa de vida normal e não tinha anotações criminais. Entretanto, vasculhando os registros policiais, ele encontrou uma ocorrência envolvendo-a como vítima, nos seis mesesanteriores ao seu assassinato. Mariana registrou uma ameaça que teria recebido por e-mail. E lendo o teor do documento, Douglas verificou que o autor — ou autora — teria escrito o seguinte: “Eu já descobri o que você faz... é questão de tempo ele saber também, sua vagabunda! O que é seu está guardadinho!”.
Douglas imprimiu o registro de ocorrência da ameaça e juntou aos autos da investigação, pois poderia ser de valia. Assim que Leandro chegou, o policial perguntou se poderia começar a ouvir as testemunhas, pois já eram nove horas da manhã e haviam marcado os depoimentos para as oito horas. Leandro concordou e pediu que Douglas fosse “adiantando”, que depois ele daria uma“lida” para ver se estava tudo certo. Acostumado já com este tipo de comportamento por parte de alguns delegados, Douglas não se surpreendeu e riu diante do olhar espantado de Luiz, dizendo para o novato:
— Tá vendo? Estuda — e bateu no ombro do rapaz, que entendeu o recado e riu de volta, balançando a cabeça.
Luiz tinha sido empossado recentemente e tinha poucos meses no cargo de inspetor de polícia. Era um jovem de 25 anos, que concluíra a faculdade de Direito recentemente e pretendia ser Promotor de Justiça ou Juiz, mas parecia se interessar bastante pelo trabalho policial. Ele tinha aquele entusiasmo dos jovens, acreditava que poderia mudar o que estava errado. Ainda não tinha visto muita coisa, nem coisas certas e nem coisas erradas, mas teve sorte em ter como parceiro um policial experiente e honesto ao seu lado, como Douglas.
Luiz se perguntava o que motivava tanto Douglas a mergulhar de cabeça naquelas investigações e percebia que o parceiro mais velho queria muito sentir que era capaz de cumprir seu dever. Ele dizia para Luiz que mesmo que tudo fosse ao final “uma grande sacanagem”, que uma parte dos colegas de profissão não quisesse nada com o trabalho, que a Justiça parecesse cada vez mais se transformar em uma utopia, ele não tinha nada a ver com isto. Sim, ele era responsável pelos seus atos e se, mesmo sozinho naquela busca pela verdade, de cem homicídios conseguisse desvendar somente cinco, estaria feliz. Pois teria cumprido seu dever e poderia dormir tranquilo. Era o que mais pareciaimportar para Douglas: sua consciência limpa. Luiz admirava esse homem, que apesar deste senso ético e de um lado humano forte, também tinha seus momentos de estresse... Como o próprio Douglas dizia, quando pegava o jovem policial surpreso com algumas de suas atitudes inesperadas e não tão certinhas. “Ué? Rapaz, eu também arroto, peido e cago, sabia?”
Mas ele percebia que o seu colega durão e sarcástico era bastante reservado, também, em sua vida pessoal. Tinha sido casado durante alguns anos, mas ficou viúvo, não teve filhos e não parecia ter uma namorada fixa, embora os policiais mais antigos comentassem que ele não era nada imune a um belo par de pernas. E era bastante assediado, era o típico “tira” com jeito de machão e um ar protetor que parecia atrair as mulheres. Simplesmente, às vezes, Douglas parecia tão enigmático quanto os homicidas que costumava caçar. Sim, ele parecia mesmo um caçador.
Luiz já estava sentado em frente ao seu terminal para digitar as declarações que Douglas iria tomar, quando fizeram entrar a primeira testemunha. Este era o porteiro do prédio: um senhor baixinho e meio gordinho, de bigode, nordestino e simpático, de nome José da Silva de Souza, conhecido como “Seu Zé”. Muito humilde, ele parecia ter medode entrar na sala, sendo convidado de forma descontraída por Douglas, que não queria assustar sua primeira testemunha.
O policial começou perguntando há quanto tempo o porteiroexercia suas funções naquele prédio, se conhecia bem todos osmoradores... até que o sentisse mais tranquilo para começar as perguntas sobre o dia do crime e sobre a vítima:
— O senhor trabalhou na data de ontem?
— Trabalhei sim senhor, eu trabalho de segunda a sábado.
— Qual é o seu horário de trabalho?
— Eu trabalho das oito às cinco horas da tarde, mas ontem fiz uma horinha extra, porque o porteiro que fica no turno da noite precisou chegar mais tarde.
— Então, o senhor estava na portaria quando a Sra. Mary chegou?
— Claro, eu a vi chegar e tudo. Ela sempre me cumprimenta. Eu gosto muito dela e das filhas, são umas moças muito legais e educadas.
— O senhor costumava conversar com elas?
— Às vezes, nada demais. As moças andavam sempre com pressa.
— E a Mariana? O que o senhor pode me falar sobre ela?
— Uma moça tão bonita... — ele abaixou a cabeça, um pouco abalado. — Ela morava com a mãe e com o filho; o garoto também é muito educadinho. Ela saía de manhã para a faculdade... parece que tinha se formado há poucos meses, mas ainda não trabalhava não. Era advogada. Ela estava sempre muito bem vestida e perfumada.
— Sei... O senhor sabe dizer se ela tinha namorado?
— Tinha sim. Um homem bem mais velho do que ela. Parece que iam morar juntos e tudo. Ele era meio fechado e acho que era sério o negócio entre os dois.
— Ela saía bastante de casa?
— Antes de este namorado aparecer ela saía muito com as amigas e com as irmãs. Parece que gostava muito de dançar. Ela dizia que gostava da “night”. É assim que elas falam, não é? Depois eu a via saindo mais com ele.
— O senhor se lembra de outros namorados, antes deste atual?
— É, teve um sim... — a testemunha olhava para cima, fazendo esforçopara lembrar. — Parece que foram noivos, mas não lembro nada dele. O que comentavam no prédio é que ele rompeu o noivado e nunca mais quis falar com ela, mas não sei o motivo. Ela ficou muito triste na época, me lembro bem disso.
— O senhor sabe dizer se ela tinha inimigos?
— Sei não senhor. Mas acho que não devia ter não, ela parecia estar sempre tão bem, tão alegre... só ficou diferente quando terminou aquele noivado, mas acho que não foi nada demais, porque depois ela voltou ao normal.
— O senhor se lembra de ter visto, na data de ontem, alguém subir até o andar da vítima, depois que a mãe dela saiu para trabalhar? — Douglas olhava bem nos olhos do porteiro, que de repente empalideceu.
— Não vi não senhor... — disse ele com a voz fraca.
— O senhor sai pra almoçar?
— Meu horário de almoço é de meio-dia até uma hora, mas eu não tenho quem fique no meu lugar, então fico comendo na salinha ao lado da portaria. Fica chato comer na frente das pessoas — disse com certa vergonha.
— E dessa salinha o senhor tem visão da portaria?
— Mais ou menos. Não dá pra ver muita coisa não... — ele titubeava.
— O senhor sente muita vergonha de almoçar e ser visto pelos moradores, não é? — perguntou Douglas, pressentindo o que acontecia na hora de almoço do porteiro. — Acho que ninguém gosta, concorda comigo?
— Ah, tenho sim. Ainda mais que adoro uma farofinha, sabe? Fica feio... — ele fez uma careta.
— E por isso costuma fechar a porta da salinha — afirmou Douglas, pegando a testemunha de surpresa.
— Eu... — o porteiro gaguejou e virou o rosto, pois o policial percebeu sua falha como profissional.
— Sem problemas, Seu Zé. Eu só preciso saber se o senhor costuma fechar a porta da salinha quando almoça... porque se fecha, com certeza não tem visão da portaria.
— Puxa vida, eu posso perder meu emprego! Eu não faço por mal, nós temos que manter aquela porta aberta. Entramos ali pra ir ao banheiro e guardar nossas coisas, se souberem que fiz isso posso atéser despedido... — ele estava quase chorando. — Nunca eu iria imaginar que alguém cometeria uma barbaridade dessas com um morador!
— Calma Seu Zé, tudo bem. Luiz, me deixa dar uma olhada... — e Douglas começou a reler o que tinha sido digitado até então.
— Tá, ok... vamos lá, Seu Zé — prosseguiu Douglas. — Nós apreendemos o DVD da câmera de filmagem... Ela fica ligada direto?
— Fica sim. Ah, de repente vocês conseguem ver quem entrou... — disse ele, parecendo animado com tal possibilidade.
— Pode ser que sim. Mas fique tranquilo, nós vamos analisar com calma. Ah, outra coisa: existe alguma outra entrada no prédio?
— Tem a entrada de carros, que fica ao lado. Vocês chegaram a ver?
— É eu vi sim. Reparei quando estive lá. Essa entrada de carros tem câmeras também?
— Até tem, mas não estão funcionando. O síndico já foi cobrado pelos moradores, mas nunca manda consertar.
— Tá bom. O senhor ajudou bastante por enquanto — ele imprimiu o termo e deu para o porteiro ler.
Este franzia muito a testa enquanto lia e disse de repente:
— Nossa... quanta palavra difícil. Eu disse essas coisas é?
Douglas riu e explicou aqueles termos mais rebuscados à testemunha, que confiou no policial, assinou e saiu. Douglas voltou sua atenção para Luiz e comentou, olhando para José, que já estava distante:
— Nem comer em paz o sujeito pode. E está arriscado a perder o emprego mesmo.
— Sacanagem! — concordou Luiz.
— É o que eu sempre digo: é tudo sacanagem! Imagina se o autor desse crime conhecia o local e resolveu subir pela outra entrada... — disse Douglas. Depois, ele foi até a porta e chamou Isadora, que estava acompanhada da mãe.
Mary queria entrar com a filha, sendo gentilmente impedida pelo inspetor, que lhe explicou que não poderiam prestar depoimento juntas, mesmo sendo mãe e filha. A postura do policial não agradou em nada a matriarca.
— Como, não posso entrar? É sobre o assassinato da minha filha que nós estamos falando e eu só tenho interesse em descobrir a verdade! — dizia ela.
Mesmo sofrendo e não falando em tom alto a mulher parecia um tanto arrogante, o que não desconcertou Douglas. Ele manteve sua posição e pediu que ela aguardasse ser chamada. Mary, então, sentou-se na sala de espera e anotou o telefone da Corregedoria de Polícia, impresso em um cartaz. Ela era observada por Douglas, que comentou com Luiz:
— Mais uma que vai tentar nos ferrar só porque estamos trabalhando da forma certa. Mas, vamos dar uma folga pra ela, está totalmente desconcertada. Vai cremar o corpo da filha hoje.
— Ah, eu escutei ela comentando. Parece que vão lançar as cinzas ao mar — disse Luiz.
Isadora aguardava os policiais e quando estes voltaram à sala para a tomada de declarações, ela esticou um papel com anotações e entregou a Douglas, dizendo serem os dados que possuía do namorado de Mariana:
— O nome dele é Rodolfo Mendonça Carvalho, mora no Recreio dos Bandeirantes... Ah, e também tem o telefone dele aí. Ele mesmo me passou esses dados... está transtornado com o que aconteceu.
— Muito obrigado, eu vou entrar em contato com ele ainda hoje. Mas ele poderia ter vindo espontaneamente — disse Douglas, expressando sua opinião.
“Um namorado, praticamente em união estável, segundo diziam, transtornado, mas que não se deu ao trabalho de comparecer à delegacia... soa a algo frio e distante, no mínimo indiferente” — pensou o desconfiado policial.
— Ele não esteve com a minha irmã ontem. Ela pediu que ele a procurasse depois, pois ainda estava um pouco inchada da cirurgia e queria que ele a visse somente quando estivesse “linda e zero quilômetro”. Ela era muito vaidosa.
— As mulheres são — respondeu Douglas.
— Eu acho que a morte da minha irmã pode ter a ver com ele, com o Rodolfo... — Isadora parecia ansiosa para falar.
— É mesmo, como assim? — Douglas percebeu que deveria deixar Isadora falar sem interrompê-la, ao contrário do que fez com o porteiro.
Luiz percebia essas mudanças no inspetor veterano, ele que sempre dizia que as pessoas eram diferentes. “Você não pode usar a mesma técnica com todas”, lembrava Luiz. “Às vezes, deve-se até mesmo abolir a técnica”.
Antes de Isadora dar início ao seu relato, o delegado Leandro entrou na sala com uma xícara de café nas mãos. E, sorridente, perguntou a Douglas, ao mesmo tempo olhando para Isadora, alheio ao estado de tensão dela:
— E aí, como estamos?
Douglas pensou em como o seu superior, apesar de não ser má pessoa, sempre aparecia nos momentos errados e da pior forma possível. Isadora, que já não tivera uma boa impressão do delegado, olhou-o irritada e abaixou a cabeça.
— Está tudo bem Doutor — respondeu enfim Douglas —, vamos começar a ouvir a senhora Isadora.
— Então, você já sabe... se precisar de mim, estou na sala do delegado titular — disse Leandro rapidamente, olhando de soslaio para as pernas de Isadora. Assim como a falecida irmã, ela era uma mulher bonita e trabalhava como modelo, mas também não era uma pessoa famosa.
Douglas sentou-se, indagou a Isadora sobre o que ela tinha acabado de dizer e ela começou a explicar:
— Inspetor, minha irmã iniciou um romance com o Rodolfo há cerca de um ano e meio... quer dizer, na verdade não, eles já estavam juntos há quase dois anos, se não me falha a memória... e iam completar dois anos de namoro em maio.
— E como eles se conheceram?
— Parece que foi uma amiga da Mariana que os apresentou. Ele ficou deslumbrado com a minha irmã, afinal de contas ela era linda.
Douglas não conseguia deixar de pensar no quanto ela parecia ser fútil, porque só se referia à irmã como uma mulher “linda” e nada mais.
— Começaram a sair sem compromisso, foram se conhecendo primeiro... — ele observava atentamente a testemunha — aí ela ficou tão encantada com ele, que era gentil, cavalheiro... Rodolfo a tratava como uma princesa.
— Qual é a ocupação dele?
— Ele trabalha com o Governador! — revelou orgulhosa. Ela parecia gostar disso. — Aliás, parece que isso já vazou, não é mesmo? — Isadora referia-se aos repórteres.
— Parece... eles são uns urubus. Mas pode continuar, por favor.
— Então... os dois iam muito bem, estavam felizes, até que uma ex-namorada do Rodolfo começou a perturbar a minha irmã. Um inferno, mulherzinha insuportável!
— Perturbava como?
— Ela descobriu que ele estava namorando minha irmã, atravésdo Facebook... aí, começou a ofender a Mariana, chamava-a de burra, de gorda, insinuava que o Rodolfo ainda tinha um caso com ela, que ele estaria traindo a minha irmã... Só baixarias.
— Ela mandava recados pra sua irmã, dizia essas coisas diretamente?
— Claro que não se identificava, mas sabíamos que era ela ou alguém a mando dela. E sempre ligava de números restritos.
— Sei... — Douglas odiava mexericos entre mulheres, principalmente quando percebia que ela queria arrumar um autor a qualquer custo, movida por emoções e sentimentos de vingança contra uma rival que, ao que parecia, era apenas uma mulher implicante e inconformada pelo fato de ser trocada por outra. Mas o assunto, ainda assim, merecia atenção.
— Me diga uma coisa: alguma vez sua irmã foi ameaçada por esta rival ou por outra pessoa? — perguntou Douglas.
— Não que eu saiba. Elas se ofendiam até pela Internet, mas acho que ameaça direta não houve não. Só que a outra parecia saber tudo da vida da minha irmã... e isto assustava.
— Elas se ofendiam. Então, a sua irmã respondia à altura?
— A outra começava e ela tinha que se defender, não? Pena que não gravamos as ofensas, pois não imaginamos que isso fosse tão longe.
— O que essa mulher sabia sobre a vida de sua irmã, que parecia assustar tanto?
— Bem... — Isadora parecia estar escondendo algo, mas Douglas não conseguia entender o que ela poderia querer ocultar sobre as duas rivais. — Ela sabia o que a minha irmã fazia... — seguiu ela — sabia onde ela cursava Direito, citava nomes de amigos da minha irmã fazendo trocadilhos...
— Mas isto ela pode ter descoberto no próprio site de relacionamentos, não? — o inspetor observava o semblante tenso de Isadora.
— Até pode, mas ela dava medo. Sabia os nomes dos ex-namorados de minha irmã, coisas deste tipo — dizia ela, tornando-se cada vez mais evasiva.
— Você e sua irmã eram muito íntimas? Contavam as coisas uma para a outra?
— Claro. A Mariana era muito aberta comigo e com minha mãe. Aliás, ela não tinha segredos sobre sua vida. Foi essa mulher quem começou a tentar difamar minha irmã.
— Difamar? Sabe o real significado desta palavra?
— Claro que sei. Ela insinuou uma vez, que minha irmã traía o Rodolfo... Coisa de gente baixo nível, nem vale a pena — seguia Isadora, mais uma vez parecendo nítido para o inspetor que ela saía pela tangente.
— E você acha que ela pode ter matado sua irmã?
— Era a única pessoa que não gostava da Mariana. E ela tem um jeito tão frio... dava pra ver pelas suas fotos no Facebook. Tem um olharestranho... Ela tinha inveja da minha irmã, estava na cara. Mulher ridícula, mal-amada!
— Qual foi o motivo do término do namoro de sua irmã com o namorado anterior?
— Como? — Isadora pareceu confusa.
— Sua irmã teve um namorado antes do atual, não teve?
— É, teve... mas isso é importante?
— Sim, para mim é. Você sabe o motivo?
— Nada demais, eles não estavam mais se entendendo... foi só isso. Acontece... — Isadora gesticulou com as mãos.
Douglas não conseguia saber o que estava faltando ali, ela não falava tudo.
— E qual o nome dela, você pode dizer?
— No Facebook ela colocava Daniela Vidal — Isadora retirou um papel da pasta que segurava e estendeu ao policial, que olhou atento. — Aqui está a página impressa do perfil dela.
Douglas observou a foto do perfil, mas não dava pra ver direito o rosto de Daniela, pois esta colocou uma foto em que aparecia distante, numa praia. Mas dava pra ver que era uma mulher clara, de cabelos lisos na altura dos ombros e compleição física normal, nem magra e nem gorda. Isadora comentou que Daniela tinha fotos no perfil, mas depois as retirou e na época ninguém teve a ideia de copiá-las... Afinal, ninguém imaginava o que aconteceria.
— Eu sei que ela tem trinta e cinco anos, porque o próprio Rodolfo contou — completou Isadora.
— Ele costumava falar dela pra vocês?
— Não. Na verdade ele falou poucas coisas e só depois que a brigadas duas começou a incomodá-lo, pois minha irmã cobrava providênciasdele, que parecia não dar a devida importância. O Rodolfo dizia para a Mariana deixar a “Dani” pra lá, que ela era “doida” e só.
— Você sabe o que essa “Dani” faz da vida? — Douglas achou estranho ouvir a irmã da vítima se referindo à provável suspeita pelo apelido. Talvez Rodolfo a chamasse assim e isto incomodasse Mariana e sua família, pois Isadora mudou o tom de voz quando pronunciou o apelido.
— Não tenho a menor ideia — respondeu ela um tanto hesitante. — Deve ser prostituta, porque cara ela tem!
Douglas olhava para a tela do computador, aparentemente não ouvindo o que ela acabava de dizer.
— Está bem Isadora. Por enquanto está bom, mas se precisar a chamaremos novamente. Eu vou imprimir o seu termo de declarações. Leia com calma e depois assine, por favor.
Isadora leu atentamente, assinou e saiu com seu andar apressado.
Douglas pediu que Mary aguardasse só mais um pouco, pois ele queria trocar ideias com o seu parceiro novato, que parecia não ter percebido uma má intenção nas declarações de Isadora. Era claro para Douglas que Isadora, embora quisesse prender o assassino de Mariana, estava sendo precipitada. Ela não conseguia dar consistência a quaisquer de suas afirmações em relação a tal “Dani”. Além disto, ela parecia se esquivar toda vez que surgia o fato daquela mulher ter dito“coisas” sobre a vítima. O que ela teria dito? Afinal de contas, se eram difamações, qual seria a razão pela qual Isadora evitava detalhar os fatos? Parecia que queria proteger a irmã morta. E a única coisa que se pode proteger em um morto, pensava Douglas, era a sua reputação.
Após falar rapidamente com Luiz sobre tais considerações, Douglas fez Mary entrar e, curiosamente, ela estava acompanhada de um advogado — embora tenha chegado à delegacia somente com a filha. O advogado se identificou como Walter Castillo e Douglas iniciou o interrogatório. Mary parecia muito cansada; ela contou sobre a rotina de sua filha e outras coisas de menor relevância, dentre as quais Isadora já havia mencionado. Em dado momento, Mary, que até então parecia um pouco distante, disse em tom agressivo:
— Eu quero aquela mulher presa! — os olhos estavam vermelhos e bem abertos, fixos nos policiais.
— De que mulher a senhora está falando? — Douglas fingiu que não tinha entendido, mas sabia que ela se referia a Daniela.
— Minha filha não contou? — perguntou ela, surpresa.
— Por que a senhora não me conta?
— A desclassificada que queria tomar o noivo da minha filha. A Mariana conseguiu me dizer antes de morrer que foi ela quem a matou.
— Ela disse? — Douglas sabia que teria trabalho.
— Sim, ela sussurrou o nome dela pra mim — disse ela com um meio sorriso maldoso, fazendo Douglas se lembrar de que no local do fato, somente lhe disseram que a vítima sussurrou “foi ela”, não tendo tempo de especificar quem era “ela”. Mas parecia que Maryqueria “facilitar” as coisas para a polícia, de um jeito não muito correto, o que deixou Douglas mais alerta ainda e preocupado.
— Como, exatamente, ela sussurrou?
— Pelo amor de Deus! O senhor quer que eu lembre os detalhes... eu estava em estado de choque! — Mary ficava cada vez mais agitada e seu advogado a acalmava.
Douglas, embora entendesse o que aquela mulher deveria estar passando, com sua experiência profissional percebia certa teatralidade.
— A senhora me desculpe, mas é que preciso saber se sua filha chegou a dizer o nome dessa pessoa.
— Ela me disse que foi ela! — Mary exclamou, enquanto olhava irritada para o policial que permanecia inabalável.
— Tudo bem, eu já entendi — disse Douglas. — Luiz, coloque que a genitora da vítima afirma ter ouvido esta dizer, em seus últimos segundos de vida, que foi Daniela quem a feriu, morrendo em seguida.
Mary ouviu o policial dizer tais palavras e olhou apreensiva para seu advogado. Este fez um gesto com a mão, pedindo para a mesma se acalmar.
— A senhora sabe me dizer se, alguma vez, a sua filha foi ameaçada pela Daniela ou por outra pessoa?
— Foi sim. Ela recebeu uma ameaça por e-mail, não me lembro bem o teor, mas a pessoa a ofendia e dizia que o que era da Mariana estava guardado. A Mariana chegou a registrar isso na delegacia, mas a autoria nunca foi apurada — Mary deu um muxoxo.
— Além da senhora, a Mariana contou sobre esta ameaça a mais alguém? Às irmãs, por exemplo?
— Claro, a família toda sabia. Foi a Isadora quem acompanhoua irmã na delegacia pra fazer o registro de ocorrência.
Douglas olhou discretamente para Luiz, que entendeu ao que ele se referia quando disse que Isadora estava sendo evasiva. Ela garantiuque não sabia sobre a irmã ter sofrido ameaças, porém a mãe afirmava que ela acompanhou a outra no dia do registro. Como Isadora não se lembraria disto?
— E vocês acham que foi a Daniela?
— Foi na época em que ela começou a perturbar a minha filha, telefonava pra ela e a ofendia. As ofensas no e-mail eram similares, sempre tentando diminuir a Mariana, fazendo-a acreditar que não era inteligente, que não era bonita... Olha, foi um horror. Nunca vi uma pessoa tão sem classe, tão má.
— A senhora sabe o que a Daniela faz?
— Eu descobri que ela é funcionária pública, mas não sei exatamente o que faz.
— A senhora “descobriu”? Investigou-a?
Naquele momento o advogado se intrometeu:
— Na verdade, minha cliente se expressou mal...
— Doutor, não interrompa, por favor. O senhor não pode interferir no depoimento e sabe disto. — Douglas falou firme, desconcertando o advogado. Este se desculpou e permaneceu calado. — Então, como a senhora descobriu a profissão dessa pessoa? — seguiu Douglas.
— Nós ficamos preocupados com as atitudes dela e eu pedi ao meu genro, que é policial militar, que tentasse descobrir algo sobre ela... — Mary perdia o ar arrogante e falava manso agora.
— Qual genro, o marido da Isadora?
— Ah, não. O marido da Isadora é empresário. Foi o meu outro genro, o Márcio... ele é casado com a minha caçula, a Ana.
— E ele descobriu alguma coisa?
— Não muita, mas eu tenho a data de nascimento dela aqui, o senhor quer?
— Claro... isso facilita na identificação. Mas me conte o que ele descobriu e como?
— Parece que ele viu uma ocorrência policial na qual ela era testemunha... e ali constava que ela era funcionária pública, mas nada muito específico.
— Entendo. E só isso? — ele fez uma pausa. — Estranho um policial não descobrir mais nada.
— Eu pedi a ele que deixasse pra lá. Sem querer eu comentei com uma amiga, em uma conversa no Orkut, que o Márcio estava levantando quem era a Daniela. Eu tinha esquecido de que a página de recados de minha amiga era aberta e a Daniela viu o que eu escrevi. Parecia que ela monitorava todos nós... dava medo mesmo. Aí, ela telefonou pra mim, dizendo que policial que trabalha “por fora”, investigando a vida alheia, merecia fazer uma visita à Corregedoria de Polícia. Eu fiquei com medo de que ela prejudicasse o meu genro e ele não buscou mais nada. E fiquei preocupada também, porque ela descobriu até o número do meu telefone celular.
Douglas percebia a mudança na mulher, que antes se mostrara indignada, com razão até, depois arrogante e aí, quando percebeu que cometera deslizes, se mostrou humilde e até mesmo temerosa. Estava acusando a outra mulher de forma muito direta, mas não tinha provas ou indícios para fazê-lo.
— A senhora pode me dizer os nomes dos vizinhos que a acudiram, quando ouviram o seu pedido de socorro?
— Com certeza, eu até trouxe os telefones deles. A Clara e o Sérgio moram no apartamento ao lado, nos conhecemos há muitos anos e eles foram os primeiros que viram aquela cena... — Mary não conteve as lágrimas, mas respirou fundo e aguardou o policial continuar.
— E os vizinhos do apartamento que fica de frente para o seu?
Mary enxugou as lágrimas e respondeu:
— Ali moram um casal e seus dois filhos, mas os pais trabalham fora e os filhos ficam com a avó materna.
— Então, só as crianças estavam em casa naquele dia.
— Provavelmente sim, além da avó.
— Eu estou perguntando, porque fiquei com pena da garota, ela parecia ter chorado bastante.
Mary sorriu tristemente e concordou com um movimento de cabeça.
— Deve ter chorado mesmo, ela gostava muito das minhas filhas. E a Mariana dava muita atenção a ela, às vezes pareciam ter a mesma idade. O garoto jogava videogame com o meu neto... — os olhos dela encheram-se de lágrimas mais uma vez. — São boas crianças, mas têm um defeito feio...
— É? Qual? — Douglas já sabia a que defeito ela se referia.
— Uma vez a mãe pegou os dois com um copo de vidro, tentando ouvir algo no apartamento do Sérgio e da Clara. Eles levaram uma surra daquelas, deu até pena.
— Nossa! — Douglas imaginou o que seria dele como policial, se não fosse curioso e indiscreto. Vendo que Mary começava a soluçar de novo, sentiu que era o momento de parar. Terminou de redigir o termo e após Mary ter assinado agradeceu à matriarca, dizendo que a família seria informada sobre qualquer fato relevante, principalmente os resultados das perícias, que eram imprescindíveis para a investigação.
— Eu é que agradeço a atenção, inspetor... — disse cansada. — Eu ainda vou jogar as cinzas da minha filha mais tarde.
— Ela pediu que fosse assim, não foi?
— Ela comentou uma vez, que achava mais singelo cremar e depois lançar as cinzas ao mar. A Mariana não queria que seu corpo e seu rosto fossem “devorados”.
Douglas percebia que a vítima era narcisista, após ter conversado com a irmã e com a mãe.
Mary logo saiu e os policiais arrumavam a mesa, cheia de papéis espalhados.
— E agora Douglas? — Luiz estava cansado de tanto digitar e já era hora do almoço.
O tempo passou de uma forma que eles nem se deram conta. Douglas era detalhista em suas oitivas, não só para pegar o máximo de informações, mas também para cansar os declarantes. “Fica mais fácil pegar uma mentira ou contradição, deixando a pessoa cansada, desconfortável...”, ele dizia.
— Agora? Vamos almoçar! — respondeu Douglas, que se alongou, pois também estava muito cansado. — Depois, vamos intimar os vizinhos, eles são importantes. Essa mãe está forçando uma barra que pode prejudicar uma pessoa, por mero capricho ou precipitação.
— Você está se referindo ao fato dela não ter sido contundente, ao afirmar que a filha mencionou o nome da suposta autora?
— Exato. Lembra que o policial militar relatou, sem hesitar, que um vizinho que estava próximo ouviu a vítima dizer apenas“foi ela”? Desde quando “ela” significa Daniela, ou Gabriela, ou Rafaela? — disse Douglas, com um jeito resmungão.
— Lembro. E se o vizinho ouviu isso, quiçá a mãe, que estavaabraçada à filha. Eu também acho que ela forçou a barra. Mas se a Mariana não tinha outros inimigos, além dessa rival, dá até pra entender um pouco, não acha?
— Não estou descartando a hipótese, essa Daniela pode até ser suspeita... eu só não gosto de mentiras. Vamos lá garoto, estou com fome — Douglas mudou de assunto de repente.
Policiais com fome se assemelhavam a leões, foi a análise silenciosa de Luiz.
— E o Doutor Leandro? Não vai mostrar a ele? — perguntou o novato.
O jovem tira é muito ingênuo mesmo, pensou Douglas, respondendo com uma gargalhada divertida:
— Não se preocupe que depois ele assina tudo. E na hora de colher os louros ele aparece.