Trilha sonora

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

2º CAPÍTULO DE ORGASMOS FATAIS PARA DEGUSTAÇÃO

CAPÍTULO 2

No dia seguinte, conforme determinado pelo delegado Leandro, os policiais Douglas e Luiz aguardavam a chegada das primeiras testemunhas arroladas: o porteiro do prédio, Isadora e Mary, esta ainda bastante transtornada, porém disposta a colaborar na descoberta do assassino de sua filha. O velório seria naquela tarde, porém a família iria cremá-la, já que este era um desejo conhecido de Mariana.
A delegacia estava cheia de repórteres, pois embora a vítima não fosse uma pessoa notória, seu namorado exercia um cargo de confiança na estrutura do Governo do Estado — era assessor jurídico do Governador e não se sabia como, antes mesmo deste fato chegar à polícia, já era notícia velha na mídia.
Douglas esperava o delegado chegar enquanto observava as fotos tiradas no local do crime. Ele pensava como uma mulher jovem e bonita como aquela, poderia ter sido assassinada daquela forma e o que teria motivado tudo aquilo. Ela parecia ser uma pessoa de vida normal e não tinha anotações criminais. Entretanto, vasculhando os registros policiais, ele encontrou uma ocorrência envolvendo-a como vítima, nos seis meses anteriores ao seu assassinato. Mariana registrou uma ameaça que teria recebido por e-mail. E lendo o teor do documento, Douglas verificou que o autor — ou autora — teria escrito o seguinte: “Eu já descobri o que você faz... é questão de tempo ele saber também, sua vagabunda! O que é seu está guardadinho!”.
Douglas imprimiu o registro de ocorrência da ameaça e juntou aos autos da investigação, pois poderia ser de valia. Assim que Leandro chegou, o policial perguntou se poderia começar a ouvir as testemunhas, pois já eram nove horas da manhã e haviam marcado os depoimentos para as oito horas. Leandro concordou e pediu que Douglas fosse “adiantando”, que depois ele daria uma “lida” para ver se estava tudo certo. Acostumado já com este tipo de comportamento por parte de alguns delegados, Douglas não se surpreendeu e riu diante do olhar espantado de Luiz, dizendo para o novato:
— Tá vendo? Estuda — e bateu no ombro do rapaz, que entendeu o recado e riu de volta, balançando a cabeça.
Luiz tinha sido empossado recentemente e tinha poucos meses no cargo de inspetor de polícia. Era um jovem de 25 anos, que concluíra a faculdade de Direito recentemente e pretendia ser Promotor de Justiça ou Juiz, mas parecia se interessar bastante pelo trabalho policial. Ele tinha aquele entusiasmo dos jovens, acreditava que poderia mudar o que estava errado. Ainda não tinha visto muita coisa, nem coisas certas e nem coisas erradas, mas teve sorte em ter como parceiro um policial experiente e honesto ao seu lado, como Douglas.
Luiz se perguntava o que motivava tanto Douglas a mergulhar de cabeça naquelas investigações e percebia que o parceiro mais velho queria muito sentir que era capaz de cumprir seu dever. Ele dizia para Luiz que mesmo que tudo fosse ao final “uma grande sacanagem”, que uma parte dos colegas de profissão não quisesse nada com o trabalho, que a Justiça parecesse cada vez mais se transformar em uma utopia, ele não tinha nada a ver com isto. Sim, ele era responsável pelos seus atos e se, mesmo sozinho naquela busca pela verdade, de cem homicídios conseguisse desvendar somente cinco, estaria feliz. Pois teria cumprido seu dever e poderia dormir tranquilo. Era o que mais parecia importar para Douglas: sua consciência limpa. Luiz admirava esse homem, que apesar deste senso ético e de um lado humano forte, também tinha seus momentos de estresse... Como o próprio Douglas dizia, quando pegava o jovem policial surpreso com algumas de suas atitudes inesperadas e não tão certinhas. “Ué? Rapaz, eu também arroto, peido e cago, sabia?”
Mas ele percebia que o seu colega durão e sarcástico era bastante reservado, também, em sua vida pessoal. Tinha sido casado durante alguns anos, mas ficou viúvo, não teve filhos e não parecia ter uma namorada fixa, embora os policiais mais antigos comentassem que ele não era nada imune a um belo par de pernas. E era bastante assediado, era o típico “tira” com jeito de machão e um ar protetor que parecia atrair as mulheres. Simplesmente, às vezes, Douglas parecia tão enigmático quanto os homicidas que costumava caçar. Sim, ele parecia mesmo um caçador.
Luiz já estava sentado em frente ao seu terminal para digitar as declarações que Douglas iria tomar, quando fizeram entrar a primeira testemunha. Este era o porteiro do prédio: um senhor baixinho e meio gordinho, de bigode, nordestino e simpático, de nome José da Silva de Souza, conhecido como “Seu Zé”. Muito humilde, ele parecia ter medo de entrar na sala, sendo convidado de forma descontraída por Douglas, que não queria assustar sua primeira testemunha.
O policial começou perguntando há quanto tempo o porteiro exercia suas funções naquele prédio, se conhecia bem todos os moradores... até que o sentisse mais tranquilo para começar as perguntas sobre o dia do crime e sobre a vítima:
— O senhor trabalhou na data de ontem?
— Trabalhei sim senhor, eu trabalho de segunda a sábado.
— Qual é o seu horário de trabalho?
— Eu trabalho das oito às cinco horas da tarde, mas ontem fiz uma horinha extra, porque o porteiro que fica no turno da noite precisou chegar mais tarde.
— Então, o senhor estava na portaria quando a Sra. Mary chegou?
— Claro, eu a vi chegar e tudo. Ela sempre me cumprimenta. Eu gosto muito dela e das filhas, são umas moças muito legais e educadas.
— O senhor costumava conversar com elas?
— Às vezes, nada demais. As moças andavam sempre com pressa.  
E a Mariana? O que o senhor pode me falar sobre ela?
Uma moça tão bonita... — ele abaixou a cabeça, um pouco abalado. — Ela morava com a mãe e com o filho; o garoto também é muito educadinho. Ela saía de manhã para a faculdade... parece que tinha se formado há poucos meses, mas ainda não trabalhava não. Era advogada. Ela estava sempre muito bem vestida e perfumada.
— Sei... O senhor sabe dizer se ela tinha namorado?
Tinha sim. Um homem bem mais velho do que ela. Parece que iam morar juntos e tudo. Ele era meio fechado e acho que era sério o negócio entre os dois.
— Ela saía bastante de casa?
— Antes de este namorado aparecer ela saía muito com as amigas e com as irmãs. Parece que gostava muito de dançar. Ela dizia que gostava da “night”. É assim que elas falam, não é? Depois eu a via saindo mais com ele.
O senhor se lembra de outros namorados, antes deste atual?
— É, teve um sim... — a testemunha olhava para cima, fazendo esforço para lembrar. — Parece que foram noivos, mas não lembro nada dele. O que comentavam no prédio é que ele rompeu o noivado e nunca mais quis falar com ela, mas não sei o motivo. Ela ficou muito triste na época, me lembro bem disso.
— O senhor sabe dizer se ela tinha inimigos?
Sei não senhor. Mas acho que não devia ter não, ela parecia estar sempre tão bem, tão alegre... só ficou diferente quando terminou aquele noivado, mas acho que não foi nada demais, porque depois ela voltou ao normal.
O senhor se lembra de ter visto, na data de ontem, alguém subir até o andar da vítima, depois que a mãe dela saiu para trabalhar?Douglas olhava bem nos olhos do porteiro, que de repente empalideceu.
— Não vi não senhor... — disse ele com a voz fraca.
— O senhor sai pra almoçar?
— Meu horário de almoço é de meio-dia até uma hora, mas eu não tenho quem fique no meu lugar, então fico comendo na salinha ao lado da portaria. Fica chato comer na frente das pessoas — disse com certa vergonha.
— E dessa salinha o senhor tem visão da portaria?
Mais ou menos. Não dá pra ver muita coisa não... — ele titubeava.
— O senhor sente muita vergonha de almoçar e ser visto pelos moradores, não é? — perguntou Douglas, pressentindo o que acontecia na hora de almoço do porteiro. — Acho que ninguém gosta, concorda comigo?
Ah, tenho sim. Ainda mais que adoro uma farofinha, sabe? Fica feio... — ele fez uma careta.
— E por isso costuma fechar a porta da salinha — afirmou Douglas, pegando a testemunha de surpresa.
Eu... — o porteiro gaguejou e virou o rosto, pois o policial percebeu sua falha como profissional.
— Sem problemas, Seu Zé. Eu só preciso saber se o senhor costuma fechar a porta da salinha quando almoça... porque se fecha, com certeza não tem visão da portaria.
— Puxa vida, eu posso perder meu emprego! Eu não faço por mal, nós temos que manter aquela porta aberta. Entramos ali pra ir ao banheiro e guardar nossas coisas, se souberem que fiz isso posso até ser despedido... — ele estava quase chorando. — Nunca eu iria imaginar que alguém cometeria uma barbaridade dessas com um morador!
Calma Seu Zé, tudo bem. Luiz, me deixa dar uma olhada... — e Douglas começou a reler o que tinha sido digitado até então.
Tá, ok... vamos lá, Seu Zé — prosseguiu Douglas. — Nós apreendemos o DVD da câmera de filmagem... Ela fica ligada direto?
Fica sim. Ah, de repente vocês conseguem ver quem entrou... — disse ele, parecendo animado com tal possibilidade.
Pode ser que sim. Mas fique tranquilo, nós vamos analisar com calma. Ah, outra coisa: existe alguma outra entrada no prédio?
Tem a entrada de carros, que fica ao lado. Vocês chegaram a ver?
— É eu vi sim. Reparei quando estive lá. Essa entrada de carros tem câmeras também?
— Até tem, mas não estão funcionando. O síndico já foi cobrado pelos moradores, mas nunca manda consertar.
— Tá bom. O senhor ajudou bastante por enquanto — ele imprimiu o termo e deu para o porteiro ler.
Este franzia muito a testa enquanto lia e disse de repente:
— Nossa... quanta palavra difícil. Eu disse essas coisas é?
Douglas riu e explicou aqueles termos mais rebuscados à testemunha, que confiou no policial, assinou e saiu. Douglas voltou sua atenção para Luiz e comentou, olhando para José, que já estava distante:
— Nem comer em paz o sujeito pode. E está arriscado a perder o emprego mesmo.
— Sacanagem! — concordou Luiz.
— É o que eu sempre digo: é tudo sacanagem! Imagina se o autor desse crime conhecia o local e resolveu subir pela outra entrada... — disse Douglas. Depois, ele foi até a porta e chamou Isadora, que estava acompanhada da mãe.
Mary queria entrar com a filha, sendo gentilmente impedida pelo inspetor, que lhe explicou que não poderiam prestar depoimento juntas, mesmo sendo mãe e filha. A postura do policial não agradou em nada a matriarca.
— Como, não posso entrar? É sobre o assassinato da minha filha que nós estamos falando e eu só tenho interesse em descobrir a verdade! — dizia ela.
Mesmo sofrendo e não falando em tom alto a mulher parecia um tanto arrogante, o que não desconcertou Douglas. Ele manteve sua posição e pediu que ela aguardasse ser chamada. Mary, então, sentou-se na sala de espera e anotou o telefone da Corregedoria de Polícia, impresso em um cartaz. Ela era observada por Douglas, que comentou com Luiz:
— Mais uma que vai tentar nos ferrar só porque estamos trabalhando da forma certa. Mas, vamos dar uma folga pra ela, está totalmente desconcertada. Vai cremar o corpo da filha hoje.
— Ah, eu escutei ela comentando. Parece que vão lançar as cinzas ao mar — disse Luiz.
Isadora aguardava os policiais e quando estes voltaram à sala para a tomada de declarações, ela esticou um papel com anotações e entregou a Douglas, dizendo serem os dados que possuía do namorado de Mariana:
— O nome dele é Rodolfo Mendonça Carvalho, mora no Recreio dos Bandeirantes... Ah, e também tem o telefone dele aí. Ele mesmo me passou esses dados... está transtornado com o que aconteceu.
— Muito obrigado, eu vou entrar em contato com ele ainda hoje. Mas ele poderia ter vindo espontaneamente — disse Douglas, expressando sua opinião.
Um namorado, praticamente em união estável, segundo diziam, transtornado, mas que não se deu ao trabalho de comparecer à delegacia... soa a algo frio e distante, no mínimo indiferente” — pensou o desconfiado policial.
— Ele não esteve com a minha irmã ontem. Ela pediu que ele a procurasse depois, pois ainda estava um pouco inchada da cirurgia e queria que ele a visse somente quando estivesse “linda e zero quilômetro. Ela era muito vaidosa.
— As mulheres são — respondeu Douglas.
— Eu acho que a morte da minha irmã pode ter a ver com ele, com o Rodolfo... — Isadora parecia ansiosa para falar.
— É mesmo, como assim? — Douglas percebeu que deveria deixar Isadora falar sem interrompê-la, ao contrário do que fez com o porteiro.
Luiz percebia essas mudanças no inspetor veterano, ele que sempre dizia que as pessoas eram diferentes. “Você não pode usar a mesma técnica com todas”, lembrava Luiz. “Às vezes, deve-se até mesmo abolir a técnica”.
Antes de Isadora dar início ao seu relato, o delegado Leandro entrou na sala com uma xícara de café nas mãos. E, sorridente, perguntou a Douglas, ao mesmo tempo olhando para Isadora, alheio ao estado de tensão dela:
— E aí, como estamos?
Douglas pensou em como o seu superior, apesar de não ser má pessoa, sempre aparecia nos momentos errados e da pior forma possível. Isadora, que já não tivera uma boa impressão do delegado, olhou-o irritada e abaixou a cabeça.
— Está tudo bem Doutor — respondeu enfim Douglas —, vamos começar a ouvir a senhora Isadora.
Então, você já sabe... se precisar de mim, estou na sala do delegado titular — disse Leandro rapidamente, olhando de soslaio para as pernas de Isadora. Assim como a falecida irmã, ela era uma mulher bonita e trabalhava como modelo, mas também não era uma pessoa famosa.
Douglas sentou-se, indagou a Isadora sobre o que ela tinha acabado de dizer e ela começou a explicar:
— Inspetor, minha irmã iniciou um romance com o Rodolfo há cerca de um ano e meio... quer dizer, na verdade não, eles já estavam juntos há quase dois anos, se não me falha a memória... e iam completar dois anos de namoro em maio.
— E como eles se conheceram?
— Parece que foi uma amiga da Mariana que os apresentou. Ele ficou deslumbrado com a minha irmã, afinal de contas ela era linda.
Douglas não conseguia deixar de pensar no quanto ela parecia ser fútil, porque só se referia à irmã como uma mulher “linda e nada mais.
Começaram a sair sem compromisso, foram se conhecendo primeiro... — ele observava atentamente a testemunha — aí ela ficou tão encantada com ele, que era gentil, cavalheiro... Rodolfo a tratava como uma princesa.
— Qual é a ocupação dele?
— Ele trabalha com o Governador! — revelou orgulhosa. Ela parecia gostar disso. — Aliás, parece que isso já vazou, não é mesmo? — Isadora referia-se aos repórteres.
Parece... eles são uns urubus. Mas pode continuar, por favor.
Então... os dois iam muito bem, estavam felizes, até que uma ex-namorada do Rodolfo começou a perturbar a minha irmã. Um inferno, mulherzinha insuportável!
— Perturbava como?
Ela descobriu que ele estava namorando minha irmã, através do Facebook... aí, começou a ofender a Mariana, chamava-a de burra, de gorda, insinuava que o Rodolfo ainda tinha um caso com ela, que ele estaria traindo a minha irmã... Só baixarias.
— Ela mandava recados pra sua irmã, dizia essas coisas diretamente?
— Minha irmã vivia recebendo telefonemas ofensivos.
— Ela se identificava ou eram trotes anônimos?
— Claro que não se identificava, mas sabíamos que era ela ou alguém a mando dela. E sempre ligava de números restritos.
— Sei... — Douglas odiava mexericos entre mulheres, principalmente quando percebia que ela queria arrumar um autor a qualquer custo, movida por emoções e sentimentos de vingança contra uma rival que, ao que parecia, era apenas uma mulher implicante e inconformada pelo fato de ser trocada por outra. Mas o assunto, ainda assim, merecia atenção.
— Me diga uma coisa: alguma vez sua irmã foi ameaçada por esta rival ou por outra pessoa? — perguntou Douglas.
— Não que eu saiba. Elas se ofendiam até pela Internet, mas acho que ameaça direta não houve não. Só que a outra parecia saber tudo da vida da minha irmã... e isto assustava.
— Elas se ofendiam. Então, a sua irmã respondia à altura?
— A outra começava e ela tinha que se defender, não? Pena que não gravamos as ofensas, pois não imaginamos que isso fosse tão longe.
— O que essa mulher sabia sobre a vida de sua irmã, que parecia assustar tanto?
Bem... — Isadora parecia estar escondendo algo, mas Douglas não conseguia entender o que ela poderia querer ocultar sobre as duas rivais. — Ela sabia o que a minha irmã fazia... — seguiu ela — sabia onde ela cursava Direito, citava nomes de amigos da minha irmã fazendo trocadilhos...
— Mas isto ela pode ter descoberto no próprio site de relacionamentos, não? — o inspetor observava o semblante tenso de Isadora.
— Até pode, mas ela dava medo. Sabia os nomes dos ex-namorados de minha irmã, coisas deste tipo — dizia ela, tornando-se cada vez mais evasiva.
— Você e sua irmã eram muito íntimas? Contavam as coisas uma para a outra?
Claro. A Mariana era muito aberta comigo e com minha mãe. Aliás, ela não tinha segredos sobre sua vida. Foi essa mulher quem começou a tentar difamar minha irmã.
— Difamar? Sabe o real significado desta palavra?
— Claro que sei. Ela insinuou uma vez, que minha irmã traía o Rodolfo... Coisa de gente baixo nível, nem vale a pena — seguia Isadora, mais uma vez parecendo nítido para o inspetor que ela saía pela tangente.
— E você acha que ela pode ter matado sua irmã?
— Era a única pessoa que não gostava da Mariana. E ela tem um jeito tão frio... dava pra ver pelas suas fotos no Facebook. Tem um olhar estranho... Ela tinha inveja da minha irmã, estava na cara. Mulher ridícula, mal-amada!
— Qual foi o motivo do término do namoro de sua irmã com o namorado anterior?
— Como? — Isadora pareceu confusa.
— Sua irmã teve um namorado antes do atual, não teve?
— É, teve... mas isso é importante?
— Sim, para mim é. Você sabe o motivo?
— Nada demais, eles não estavam mais se entendendo... foi só isso. Acontece... — Isadora gesticulou com as mãos.
Douglas não conseguia saber o que estava faltando ali, ela não falava tudo.
— E qual o nome dela, você pode dizer?
No Facebook ela colocava Daniela Vidal — Isadora retirou um papel da pasta que segurava e estendeu ao policial, que olhou atento. — Aqui está a página impressa do perfil dela.
Douglas observou a foto do perfil, mas não dava pra ver direito o rosto de Daniela, pois esta colocou uma foto em que aparecia distante, numa praia. Mas dava pra ver que era uma mulher clara, de cabelos lisos na altura dos ombros e compleição física normal, nem magra e nem gorda. Isadora comentou que Daniela tinha fotos no perfil, mas depois as retirou e na época ninguém teve a ideia de copiá-las... Afinal, ninguém imaginava o que aconteceria.
— Eu sei que ela tem trinta e cinco anos, porque o próprio Rodolfo contou — completou Isadora.
— Ele costumava falar dela pra vocês?
Não. Na verdade ele falou poucas coisas e só depois que a briga das duas começou a incomodá-lo, pois minha irmã cobrava providências dele, que parecia não dar a devida importância. O Rodolfo dizia para a Mariana deixar a “Dani” pra lá, que ela era “doida” e só.
— Você sabe o que essa “Dani” faz da vida? — Douglas achou estranho ouvir a irmã da vítima se referindo à provável suspeita pelo apelido. Talvez Rodolfo a chamasse assim e isto incomodasse Mariana e sua família, pois Isadora mudou o tom de voz quando pronunciou o apelido.
— Não tenho a menor ideia — respondeu ela um tanto hesitante. — Deve ser prostituta, porque cara ela tem!
Douglas olhava para a tela do computador, aparentemente não ouvindo o que ela acabava de dizer.
Está bem Isadora. Por enquanto está bom, mas se precisar a chamaremos novamente. Eu vou imprimir o seu termo de declarações. Leia com calma e depois assine, por favor.
Isadora leu atentamente, assinou e saiu com seu andar apressado.
Douglas pediu que Mary aguardasse só mais um pouco, pois ele queria trocar ideias com o seu parceiro novato, que parecia não ter percebido uma má intenção nas declarações de Isadora. Era claro para Douglas que Isadora, embora quisesse prender o assassino de Mariana, estava sendo precipitada. Ela não conseguia dar consistência a quaisquer de suas afirmações em relação a tal “Dani”. Além disto, ela parecia se esquivar toda vez que surgia o fato daquela mulher ter dito “coisas” sobre a vítima. O que ela teria dito? Afinal de contas, se eram difamações, qual seria a razão pela qual Isadora evitava detalhar os fatos? Parecia que queria proteger a irmã morta. E a única coisa que se pode proteger em um morto, pensava Douglas, era a sua reputação.
Após falar rapidamente com Luiz sobre tais considerações, Douglas fez Mary entrar e, curiosamente, ela estava acompanhada de um advogado — embora tenha chegado à delegacia somente com a filha. O advogado se identificou como Walter Castillo e Douglas iniciou o interrogatório. Mary parecia muito cansada; ela contou sobre a rotina de sua filha e outras coisas de menor relevância, dentre as quais Isadora já havia mencionado. Em dado momento, Mary, que até então parecia um pouco distante, disse em tom agressivo:
— Eu quero aquela mulher presa! — os olhos estavam vermelhos e bem abertos, fixos nos policiais.
De que mulher a senhora está falando? — Douglas fingiu que não tinha entendido, mas sabia que ela se referia a Daniela.
— Minha filha não contou? — perguntou ela, surpresa.
— Por que a senhora não me conta?
— A desclassificada que queria tomar o noivo da minha filha. A Mariana conseguiu me dizer antes de morrer que foi ela quem a matou.
— Ela disse? — Douglas sabia que teria trabalho.
— Sim, ela sussurrou o nome dela pra mim — disse ela com um meio sorriso maldoso, fazendo Douglas se lembrar de que no local do fato, somente lhe disseram que a vítima sussurrou “foi ela”, não tendo tempo de especificar quem era “ela”. Mas parecia que Mary queria “facilitar” as coisas para a polícia, de um jeito não muito correto, o que deixou Douglas mais alerta ainda e preocupado.
— Como, exatamente, ela sussurrou?
Pelo amor de Deus! O senhor quer que eu lembre os detalhes... eu estava em estado de choque! — Mary ficava cada vez mais agitada e seu advogado a acalmava.
Douglas, embora entendesse o que aquela mulher deveria estar passando, com sua experiência profissional percebia certa teatralidade.
— A senhora me desculpe, mas é que preciso saber se sua filha chegou a dizer o nome dessa pessoa.
— Ela me disse que foi ela! — Mary exclamou, enquanto olhava irritada para o policial que permanecia inabalável.
Tudo bem, eu já entendi — disse Douglas. — Luiz, coloque que a genitora da vítima afirma ter ouvido esta dizer, em seus últimos segundos de vida, que foi Daniela quem a feriu, morrendo em seguida.
Mary ouviu o policial dizer tais palavras e olhou apreensiva para seu advogado. Este fez um gesto com a mão, pedindo para a mesma se acalmar.
— A senhora sabe me dizer se, alguma vez, a sua filha foi ameaçada pela Daniela ou por outra pessoa?
Foi sim. Ela recebeu uma ameaça por e-mail, não me lembro bem o teor, mas a pessoa a ofendia e dizia que o que era da Mariana estava guardado. A Mariana chegou a registrar isso na delegacia, mas a autoria nunca foi apurada — Mary deu um muxoxo.
— Além da senhora, a Mariana contou sobre esta ameaça a mais alguém? Às irmãs, por exemplo?
Claro, a família toda sabia. Foi a Isadora quem acompanhou a irmã na delegacia pra fazer o registro de ocorrência.
Douglas olhou discretamente para Luiz, que entendeu ao que ele se referia quando disse que Isadora estava sendo evasiva. Ela garantiu que não sabia sobre a irmã ter sofrido ameaças, porém a mãe afirmava que ela acompanhou a outra no dia do registro. Como Isadora não se lembraria disto?
— E vocês acham que foi a Daniela?
— Foi na época em que ela começou a perturbar a minha filha, telefonava pra ela e a ofendia. As ofensas no e-mail eram similares, sempre tentando diminuir a Mariana, fazendo-a acreditar que não era inteligente, que não era bonita... Olha, foi um horror. Nunca vi uma pessoa tão sem classe, tão má.
— A senhora sabe o que a Daniela faz?
— Eu descobri que ela é funcionária pública, mas não sei exatamente o que faz.
— A senhora “descobriu”? Investigou-a?
Naquele momento o advogado se intrometeu:
— Na verdade, minha cliente se expressou mal...
— Doutor, não interrompa, por favor. O senhor não pode interferir no depoimento e sabe disto. — Douglas falou firme, desconcertando o advogado. Este se desculpou e permaneceu calado. — Então, como a senhora descobriu a profissão dessa pessoa? — seguiu Douglas. 
— Nós ficamos preocupados com as atitudes dela e eu pedi ao meu genro, que é policial militar, que tentasse descobrir algo sobre ela... — Mary perdia o ar arrogante e falava manso agora.
— Qual genro, o marido da Isadora?
— Ah, não. O marido da Isadora é empresário. Foi o meu outro genro, o Márcio... ele é casado com a minha caçula, a Ana.
— E ele descobriu alguma coisa?
— Não muita, mas eu tenho a data de nascimento dela aqui, o senhor quer?
— Claro... isso facilita na identificação. Mas me conte o que ele descobriu e como?
— Parece que ele viu uma ocorrência policial na qual ela era testemunha... e ali constava que ela era funcionária pública, mas nada muito específico.
— Entendo. E só isso? — ele fez uma pausa. — Estranho um policial não descobrir mais nada.
— Eu pedi a ele que deixasse pra lá. Sem querer eu comentei com uma amiga, em uma conversa no Orkut, que o Márcio estava levantando quem era a Daniela. Eu tinha esquecido de que a página de recados de minha amiga era aberta e a Daniela viu o que eu escrevi. Parecia que ela monitorava todos nós... dava medo mesmo. Aí, ela telefonou pra mim, dizendo que policial que trabalha “por fora”, investigando a vida alheia, merecia fazer uma visita à Corregedoria de Polícia. Eu fiquei com medo de que ela prejudicasse o meu genro e ele não buscou mais nada. E fiquei preocupada também, porque ela descobriu até o número do meu telefone celular.
Douglas percebia a mudança na mulher, que antes se mostrara indignada, com razão até, depois arrogante e aí, quando percebeu que cometera deslizes, se mostrou humilde e até mesmo temerosa. Estava acusando a outra mulher de forma muito direta, mas não tinha provas ou indícios para fazê-lo.
— A senhora pode me dizer os nomes dos vizinhos que a acudiram, quando ouviram o seu pedido de socorro?
— Com certeza, eu até trouxe os telefones deles. A Clara e o Sérgio moram no apartamento ao lado, nos conhecemos há muitos anos e eles foram os primeiros que viram aquela cena... — Mary não conteve as lágrimas, mas respirou fundo e aguardou o policial continuar.
E os vizinhos do apartamento que fica de frente para o seu?
Mary enxugou as lágrimas e respondeu:
Ali moram um casal e seus dois filhos, mas os pais trabalham fora e os filhos ficam com a avó materna.
— Então, só as crianças estavam em casa naquele dia.
— Provavelmente sim, além da avó.
— Eu estou perguntando, porque fiquei com pena da garota, ela parecia ter chorado bastante.
Mary sorriu tristemente e concordou com um movimento de cabeça.
— Deve ter chorado mesmo, ela gostava muito das minhas filhas. E a Mariana dava muita atenção a ela, às vezes pareciam ter a mesma idade. O garoto jogava videogame com o meu neto... — os olhos dela encheram-se de lágrimas mais uma vez. — São boas crianças, mas têm um defeito feio...
— É? Qual? — Douglas já sabia a que defeito ela se referia.
— Uma vez a mãe pegou os dois com um copo de vidro, tentando ouvir algo no apartamento do Sérgio e da Clara. Eles levaram uma surra daquelas, deu até pena.
Nossa! — Douglas imaginou o que seria dele como policial, se não fosse curioso e indiscreto. Vendo que Mary começava a soluçar de novo, sentiu que era o momento de parar. Terminou de redigir o termo e após Mary ter assinado agradeceu à matriarca, dizendo que a família seria informada sobre qualquer fato relevante, principalmente os resultados das perícias, que eram imprescindíveis para a investigação.
— Eu é que agradeço a atenção, inspetor... — disse cansada. — Eu ainda vou jogar as cinzas da minha filha mais tarde.
— Ela pediu que fosse assim, não foi?
— Ela comentou uma vez, que achava mais singelo cremar e depois lançar as cinzas ao mar. A Mariana não queria que seu corpo e seu rosto fossem “devorados”.
Douglas percebia que a vítima era narcisista, após ter conversado com a irmã e com a mãe.
Mary logo saiu e os policiais arrumavam a mesa, cheia de papéis espalhados.
— E agora Douglas? — Luiz estava cansado de tanto digitar e já era hora do almoço.
O tempo passou de uma forma que eles nem se deram conta. Douglas era detalhista em suas oitivas, não só para pegar o máximo de informações, mas também para cansar os declarantes. “Fica mais fácil pegar uma mentira ou contradição, deixando a pessoa cansada, desconfortável...”, ele dizia.
— Agora? Vamos almoçar! — respondeu Douglas, que se alongou, pois também estava muito cansado. — Depois, vamos intimar os vizinhos, eles são importantes. Essa mãe está forçando uma barra que pode prejudicar uma pessoa, por mero capricho ou precipitação.
Você está se referindo ao fato dela não ter sido contundente, ao afirmar que a filha mencionou o nome da suposta autora?
— Exato. Lembra que o policial militar relatou, sem hesitar, que um vizinho que estava próximo ouviu a vítima dizer apenas “foi ela”? Desde quando “ela” significa Daniela, ou Gabriela, ou Rafaela? — disse Douglas, com um jeito resmungão.
Lembro. E se o vizinho ouviu isso, quiçá a mãe, que estava abraçada à filha. Eu também acho que ela forçou a barra. Mas se a Mariana não tinha outros inimigos, além dessa rival, dá até pra entender um pouco, não acha?
— Não estou descartando a hipótese, essa Daniela pode até ser suspeita... eu só não gosto de mentiras. Vamos lá garoto, estou com fome — Douglas mudou de assunto de repente.
Policiais com fome se assemelhavam a leões, foi a análise silenciosa de Luiz.
E o Doutor Leandro? Não vai mostrar a ele? — perguntou o novato.
O jovem tira é muito ingênuo mesmo, pensou Douglas, respondendo com uma gargalhada divertida:
— Não se preocupe que depois ele assina tudo. E na hora de colher os louros ele aparece.



quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

1º CAPÍTULO DE ORGASMOS FATAIS PARA DEGUSTAÇÃO


CAPÍTULO 1

Às dezoito horas de uma quinta-feira do mês de fevereiro de 2010, Mary Alves, após chegar do trabalho, tocou a campainha de seu apartamento situado no Grajaú e ficou aguardando que sua filha mais velha viesse abrir. A empregada estava de folga e Mariana, que tinha acabado de se formar na faculdade de Direito, se recuperava de uma cirurgia estética nos seios na casa de sua mãe, com quem sempre morou.
Mary tocou impacientemente mais duas vezes, pois estava realmente cansada, louca para tomar um banho e se deitar. Ela procurou a chave na bolsa, imaginando que Mariana estivesse dormindo, o que era comum nos últimos dias, em razão dos remédios receitados por seu médico para evitar dores no local da cirurgia. Porém, quando ela enfiou a chave na fechadura a porta se abriu automaticamente, antes mesmo dela iniciar o giro, o que a deixou inquieta. Mariana não deixava a porta destrancada, ela tinha medo de assaltos.
A porta principal realmente estava aberta e ela sentiu um arrepio gelado, pois chamou Mariana e ninguém respondeu. Devagar, Mary entrou na sala de estar, grande e bem mobiliada. Instintivamente, ela olhou assustada para um dos sofás que ficava de frente para a porta principal — um móvel grande e pesado. O ambiente parecia estar em ordem, mas Mary sentia o coração disparar à medida que se aproximava do móvel avantajado. Caminhou pela lateral deste, para poder olhar atrás e não pôde conter o grito de pavor:
— Mariana, não! Socorro... a minha filha! Socorro!
Os gritos alucinantes e roucos logo atraíram vizinhos, que ao entrarem naquela casa, se depararam com Mary em estado de choque, ajoelhada sobre o corpo ensanguentado de Mariana. Todos ficaram perplexos com o que viram e tentavam afastá-la dali, mas a mulher não soltava o corpo de sua bela filha — uma morena clara, de 32 anos, alta, tipo “mulherão”, com cabelos compridos e escuros e que agora ali jazia inerte. Ela trajava um vestido simples sem mangas e na altura dos joelhos, de cor bege, folgado no corpo e sem muitos detalhes; estava gravemente ferida, o corpo banhado em sangue tingia o tecido fino e delicado, as sapatilhas rasteiras também estavam vermelhas, indicando que seu sangue jorrava em abundância. Seus olhos abertos e frios davam uma sombria sensação de que ali não havia mais vida.
Porém, Mariana conseguiu forças para murmurar algo à mãe, que embora estivesse em prantos e prestes a perder seus sentidos, ao ouvir a voz da filha já moribunda, pareceu recuperar parte de sua racionalidade e disse:
Sim, meu amor, eu estou aqui. Fica quietinha, a ambulância está chegando e você vai ficar boa...
— Foi ela, foi ela... — sua voz saía como um sopro.
Mary arregalou os olhos, sem entender bem o que ouvia e olhou ao redor, percebendo aquelas pessoas dentro de sua casa; estavam fazendo ligações diversas, para hospitais, polícia, enfim... Ela estava no meio de um caos. Então, aproximou bem o ouvido dos lábios da filha, para entender o que a mesma tentava lhe dizer. A voz de Mariana estava fraca, muito fraca... o som saía estranho.
— Ela quem meu amor? — as lágrimas vinham com intensidade. — Fala, por favor.
— Ela... — Mariana suspirou e sua respiração parou.
Mary gritou desesperada e então, só percebeu um homem de branco — que posteriormente soube ser um enfermeiro — aplicando-lhe um sedativo que a deixou praticamente fora de si. Alguém já havia chamado o Corpo de Bombeiros e um dos socorristas atendeu a desolada mãe, enquanto todos aguardavam a chegada da polícia.
Logo, policiais militares chegaram e trataram de isolar o local, afastar os inconvenientes curiosos e arrolar testemunhas potenciais, tais como o porteiro, vizinhos mais próximos, bem como identificar e qualificar a vítima e sua mãe. Estavam procedendo assim, quando dois policiais civis da Delegacia de Homicídios e dois peritos chegaram juntos para assumirem o controle da situação. Um dos agentes policiais, um homem de meia-idade, moreno claro, de cabelos escuros e lisos, altura mediana e semblante sério, se aproximou do policial militar que protegia o local e se apresentou, indicando também seu colega de trabalho, um policial mais jovem. Para aquele policial militar era evidente que o segundo tinha bem pouco tempo de profissão, ao contrário de seu colega de voz grave e firme:
Eu sou o inspetor Douglas e este é meu colega Luiz. Nós somos da Delegacia de Homicídios.
Todos se cumprimentaram cordialmente e Douglas, experiente em investigar casos de homicídio, iniciou suas perguntas ao policial militar, que se apresentou como Sargento Mota.
— Quem era a moça? — Douglas perguntou.
— O seu nome era Mariana Alves Andrade e tinha 32 anos. Parece que ela estava passando uns dias na casa da mãe — ele apontou Mary no sofá. — Ela se recuperava de uma cirurgia.
Tinha algum problema de saúde? — interrompeu o inspetor veterano, enquanto examinava o local.
— Não — riu o Sargento. — Ela colocou próteses de silicone, mas pelo jeito alguém não gostou e furou suas “bolinhas” novas. Ela tem ferimentos no peito. Parecem facadas, mas não encontramos a provável arma do crime ainda.
Foi a mãe quem encontrou o corpo? — Douglas observava a mulher quase inconsciente.
Sim. Mas na verdade a filha ainda estava viva. Um vizinho que estava perto ouviu quando a vítima sussurrou algo como: “foi ela, foi ela...”. Mas, ela morreu logo em seguida.
— Então, ela mencionou algo neste sentido antes de morrer? — Douglas olhava atentamente agora para o corpo da vítima, enquanto Luiz anotava freneticamente tudo o que via e ouvia.
— Sim. Desculpe-me a pergunta inspetor, mas onde está o delegado?
Pra variar não veio — Douglas deu uma risada discreta. — Mas nós estamos aqui, não estamos? Já telefonamos e pedimos a ele que se apresse... afinal, se ele ganha mais não é à toa, não é mesmo?
— Eu entendo inspetor — Mota riu e coçou a cabeça, analisando que as mentes mais brilhantes e os agentes mais atuantes na polícia não eram chamados de “doutores” e não tinham um salário tão digno quanto à função que exerciam.
Douglas pediu licença ao Sargento e dirigiu-se ao perito criminal, que procurava vestígios no local. Ele conhecia aquele perito, um bom profissional, pois já haviam trabalhado juntos. Isto era um fator facilitador para o policial.
O perito, conhecido como Nunes, logo acenou para Douglas e Luiz, exibindo um objeto acondicionado em um saco plástico.
Encontrou algo? O que é? — perguntou o interessado Douglas. Ele já começava a se envolver naquela ocorrência, que com certeza tiraria muitas de suas noites de sono. Aliás, isto sempre acontecia quando ele se via envolvido em investigações de homicídio como aquela.
— Isto estava no carpete, próximo ao sofá — Nunes explicou. — Parece ser uma pedra de anel quebrada, mas somente após a conclusão do laudo nós poderemos afirmar se é isto mesmo. Mas uma coisa é interessante: a vítima tem um ferimento no lado esquerdo do rosto, que pode ter sido causado por um objeto como este. Por enquanto estamos no campo das suposições.
Se isso for uma pedra de anel, ela poderia ter levado um soco? — Douglas raciocinava.
— Poderia sim, ou até mesmo ter levado um tapa com as costas da mão, o que me parece ser o mais provável — o perito fez um gesto com a mão, imitando o movimento. — Até porque, pelo que eu pude avaliar, ela levou cinco ou seis estocadas no peito, talvez facadas. Os ferimentos foram causados por instrumentos diferentes. — Nunes guardava o objeto apreendido.
— E tem mais: quem lhe causou esse ferimento no rosto deve ser canhoto... ou canhota.
Douglas ficou quieto e de repente um homem branco e alto, trajando terno e gravata, entrou no recinto, exibindo aos policiais seu distintivo. Era o delegado de polícia, que procurava esbaforido os seus subordinados.
— E aí, algo relevante? — perguntou o próprio.
— Parece que a vítima tentou falar para a mãe o nome de sua provável assassina — respondeu Douglas, enquanto complementava as anotações de Luiz.
— Assassina? — perguntou o delegado, um pouco surpreso. — Ela disse que foi uma mulher?
— Ela disse pra mãe que “foi ela” ou algo parecido. Mas ela não conseguiu prosseguir, faleceu em seguida.
Entendo — disse o delegado, não muito interessado no caso, já que precisou sair correndo do início de uma aula para comparecer no local daquele crime. Ele ministrava aulas de Direito Penal em uma conceituada universidade.
Mas já que estava ali, ele pretendia mostrar serviço. A autoridade aproximou-se de Mary, que estava sendo confortada por outra filha que acabara de chegar ao local e também estava muito emocionada. Sem o menor tato, ele disse:
— Senhora, eu sou o delegado Leandro, da Delegacia de Homicídios, e gostaria de lhe fazer algumas perguntas.
A filha de Mary, encarando-o ferozmente, tomou a frente e disse:
O senhor não está vendo que a minha mãe não tem condições de dizer o seu próprio nome? Ela chegou a casa após um dia de trabalho, deu de cara com a filha ensanguentada atrás do sofá, assassinada de forma brutal, está dopada até a alma e o senhor age como se nada estivesse acontecendo com ela? — o tom de voz da moça aumentava.
Douglas olhou para aquela cena e balançou a cabeça negativamente. Em seguida interveio:
— Doutor Leandro, a senhora Mary tomou remédios e não está em condições agora. Tenho certeza de que depois ela será a primeira a querer colaborar com as investigações.
Douglas olhou para a outra filha de Mary, que lhe agradeceu com um sorriso triste e respondeu:
— Eu posso ajudar em alguma coisa agora? Cheguei depois, mas... — ela se dirigia unicamente ao inspetor, enquanto o delegado se afastava contrariado.
Não vou enchê-la de perguntas agora, eu sei que este momento não é fácil. Por enquanto, eu só gostaria de saber algumas coisas sobre vocês — Douglas fez uma pausa. — Você também mora aqui? Sua mãe trabalha em quê, exatamente?
— Eu me chamo Isadora e sou a segunda de três filhas. Mariana era a mais velha e morava com a minha mãe e seu filho de 10 anos, o Felipe... — ela recomeçou a chorar de repente. — Nossa...  como nós vamos contar isso ao menino?
Seguiu-se uma pausa constrangedora, enquanto Isadora tentava recompor-se. 
Depois, Douglas perguntou:
— Então, ela tinha um filho?
— Sim, ela era mãe solteira. O Felipe está na casa do pai, passando alguns dias. A Mariana tinha um relacionamento amistoso com o pai do meu sobrinho. Na verdade, a minha irmã estava praticamente morando com o atual namorado. Ela ficava uns dias aqui, outros com ele e estava se acostumando com a nova rotina. Minha mãe é contadora e chega sempre do trabalho por volta das dezoito horas. Ela adorava a companhia da Mariana... Eu sou casada já há sete anos e minha irmã mais nova, a Ana, ela também mora com o marido.
Você tem o telefone ou o endereço do namorado da sua irmã?
No momento não, mas eu posso conseguir e passar para o senhor depois, tudo bem?
Está bem — ele anotou os dados que Isadora lhe fornecera.Muito obrigado Isadora. Eu vou telefonar para marcarmos uma oitiva na delegacia, tá bom?
A jovem acenou afirmativamente com a cabeça e Douglas retornou para falar com o perito.
Impressões digitais? — perguntou o próprio, aproximando-se do experto[1].
Como sempre, muitas. Provavelmente encontraremos também as da própria vítima e é certo que quem a matou limpou o local. E não há sinais de arrombamento na porta, nem de luta corporal, muito menos arrastamento do corpo. Logo, eu acredito que a vítima já estivesse atrás do sofá quando recebeu os golpes fatais.
— Não houve luta, a princípio, mas o que me diz sobre o ferimento em seu rosto? — lembrou Douglas.
Se ela foi realmente nocauteada, não houve luta. O assassino ou a assassina pode tê-la derrubado ou dominado e ela nem teve chance de se defender — o perito apontou para uma arca localizada atrás do sofá. — O corpo está caído entre aquele móvel e o sofá e em cima do primeiro vemos alguns analgésicos.
— Pelo jeito também, nada foi roubado, não é? — Douglas perguntou.
A princípio nada. Mas isto só a dona da casa poderá confirmar — disse Nunes e olhou rapidamente para Mary, que chorava exaustivamente.
Doutor! — Luiz chamava o delegado, que foi seguido por Douglas até o banheiro localizado em um corredor, logo após a sala. — Olha só isso aqui — revelou o policial novato, entusiasmado ao apontar a descoberta, um indício talvez: uma peruca preta, de tamanho médio, fios lisos e de corte reto, estava jogada no chão do banheiro.           O delegado precipitou-se e já ia pegar o objeto, sendo impedido a tempo pelo inspetor Douglas, que disse:
Doutor, cuidado para não alterar a cena do crime. O perito vai apreender a peruca e mandar para análise ainda — o policial já estava impaciente com as atitudes nada profissionais de seu superior hierárquico.
— Eu sei. Eu não ia pegar a peruca, não sou estúpido — disse a Autoridade, visivelmente aborrecido com o fato de um subordinado apontar os seus erros o tempo todo.
Por que o assassino viria até aqui jogar uma peruca no chão? — perguntou o inexperiente, porém dedicado e interessado Luiz.
Vai ver que ele ou ela queria lavar as mãos, né? — disse um policial militar, fazendo piada com a situação.
Um silêncio desconfortável seguiu-se, porém Douglas deu um sorriso para o homem que, apesar de ter sido hostilizado por sua brincadeira de mau gosto, poderia até estar certo.
— Doutor Leandro, nós vamos precisar ouvir o porteiro o quanto antes e apreender os DVDs de filmagens. Não sei se o senhor percebeu, mas o prédio possui câmeras logo na portaria — lembrou Douglas ao seu chefe.
— Claro, marque as oitivas para amanhã cedo. Eu estarei na delegacia às oito horas.
Ato contínuo, os peritos fizeram a remoção do corpo ao Instituto Médico Legal, o que provocou mais desespero na mãe. Aquela cena era massacrante demais. Os agentes saíram do local em seguida, enquanto Mary era amparada por Isadora. Alguns vizinhos estavam do lado de fora do apartamento e surgiam comentários diversos; era a curiosidade natural diante de um fato daqueles. Um casal de meia-idade entrou no apartamento ao lado e, segundo Douglas ficou sabendo ali mesmo, eles teriam sido os primeiros que acudiram Mary. Parecia que já conheciam a família da vítima há alguns anos.
O policial observou o corredor do prédio: era decorado com várias plantas ornamentais e tinha uma boa iluminação. Mas o que lhe chamou atenção, depois de toda aquela cena chocante, foram duas crianças. Na verdade, uma adolescente que aparentava ter, no máximo, quinze anos de idade e um garoto que deveria ter uns dez. Estavam os dois parados na porta do apartamento, cuja entrada ficava praticamente de frente para o apartamento de Mary. A garota segurava a porta com uma das mãos, obrigando o irmão a ir mais para trás. Ela o queria dentro de casa, dava pra perceber. Ambos estavam assustados e com os olhos arregalados. Douglas imaginou que deveria ser toda aquela movimentação e os comentários. A garota estava com os olhos vermelhos, provavelmente deve ter chorado bastante ao saber da morte de sua vizinha.
Ele gostava muito de crianças, sentiu pena e se aproximou dos dois, que o olharam com medo e ao mesmo tempo curiosos.
— Como é o seu nome? — ele perguntou à garota, enquanto o menino, que aparentava ser seu irmão, se afastava um pouco mais da porta.
— Aline — respondeu ela, meio sem graça.
Douglas reparou que na sua outra mão, a menina segurava uma câmera digital e parecia tentar escondê-la.
— Nome bonito — disse Douglas em um tom simpático.
Ela riu, mas logo o seu olhar se voltou novamente para o corredor, ainda repleto de pessoas. O corpo da vítima estava sendo levado em um saco plástico preto.
— Você mora aqui? — perguntou ele.
A menina acenou afirmativamente com a cabeça.
Mas, quando Douglas já ia fazer outra pergunta à jovem, uma mulher de seus sessenta anos, cabelos grisalhos e óculos de grau pesados, passou por ambos e entrou no apartamento. Ela era avó dos dois e começou a brigar com a neta:
Deixa de ser fofoqueira, Aline! — esbravejou ela, pedindo licença ao policial e puxando a neta para dentro. — Desculpe policial, eles são muito curiosos.
— Eu só estava conversando com ela. A menina está triste. A senhora é parente dela?
A mulher olhou com mais atenção para a neta, percebendo o seu olhar cabisbaixo.
— Eu sou avó dos dois. Ela gostava muito da Mariana, mas tem uma mania muito feia, ela e o irmão, de ficarem vigiando a vida alheia. Já levaram até uma surra da mãe por causa disso.
Douglas observou Aline, que agora estava sentada no sofá de sua sala, com o olhar meio distante e as mãos sobre sua câmera. O irmão estava deitado sobre suas pernas.
— Eles ainda são muito novos, senhora — disse Douglas. — Dá um desconto pra eles.
— Sim senhor — a mulher deu um meio sorriso e já ia fechando a porta, quando Douglas lhe fez outra pergunta:
— Seus netos chegaram agora da escola?
— Não, eles estudam de manhã. Eu fui ao mercado e os dois ficaram em casa. Eles ficam vendo televisão, brincando no videogame... essas coisas.
Ah... entendo. Não se esqueça de orientá-los a trancarem sempre a porta. Deu pra ter certeza de que não existe mais segurança em lugar nenhum, não é mesmo? — ele arregalou os olhos e a mulher acompanhou o gesto.
— Claro, o senhor tem razão. Muito obrigada.
— Não foi nada — Douglas deu um aceno para a vizinha de Mary e saiu olhando para os lados, para o chão... nem mesmo o teto escapava. Ele sentia uma forte pressão no peito e não era mal-estar físico, pois o charmoso policial gozava de excelente saúde. Era sua intuição querendo lhe dizer que aquelas paredes ainda tinham muito a lhe contar.


[1] “Experto” com “X” é sinônimo de “perito” e não se confunde com “esperto”. Em Inglês, “expert”.


domingo, 13 de novembro de 2011

CONTOS POLICIAIS MUITO BONS!


Não farei uma resenha muito grande, pois Sir Arthur Conal Doyle está pra lá de consagrado na literatura policial. Apenas expressarei, de forma sucinta, minha opinião sobre esta pequena coletânea de cinco contos do celebrado escritor escocês.

1) A Faixa Malhada: acho que foi o meu preferido, pois achei a trama criativa e até mesmo horripilante. Mas antes que Sherlock revelasse o que seria a "faixa malhada", eu percebi do que se tratava.

2)Um Escândalo na Boêmia: aqui, nosso sagaz detetive conhece Irene Adler, "a mulher". Ele encontra alguém à sua altura, no que concerne a inteligência e astúcia.

3)A Liga dos Cabeça-Vermelha: chega a ser engraçada, pois lembra os golpes que as pessoas sofrem por parte de vigaristas. Sabe aquela célebre frase: "quando a esmola é grande..."? Desconfie!

4)O Problema Final: relata a "morte" de Sherlock Holmes, sempre através das narrativas de Watson.

5) A Casa Vazia: triunfante retorno de Sherlock Holmes.

Sherlock Holmes, além de inteligente e lógico, possui de um senso de humor inigualável! Frio e sarcástico, ele consegue irritar seus inimigos, pois além de tudo, é destemido.

Obra altamente recomendada.

sábado, 5 de novembro de 2011

UM ACHADO!!!


SINOPSE:

Um serial Killer choca o mundo após dar início a uma onda de assassinatos brutais, com perversos requintes de crueldade. Sua metodologia: ressuscitar os crimes mais hediondos do passado, utilizando-se de pessoas inocentes como alvo. Em sua lista, alguns dos casos que mais chocaram o país: Von Richthofen, Daniella Perez, PC Farias e o sinistro Meninos de Altamira.

Chamado pela mídia de O Copiador, o sociopata deixa em cada um de seus crimes  a foto da próxima cópia, e uma aterradora promessa: "As mortes não cessarão enquanto Dom João da Costa Cunha continuar a viver". É conclave na Igreja Católica e o cardeal brasileiro é o nome mais cotado para ser eleito Papa.


Para comandar o caso, a polícia convoca o renomado Delegado Ronaldo Leme, que dá início à maior caçada policial da história. Com uma equipe de detetives policiais altamente qualificados e o auxílio dos mais extraordinários equipamentos de investigação criminal, eles correm contra o tempo para deter O Copiador, mas esbarram em uma série de evidências enigmáticas, as quais precisam decifrar.

O caso cai como uma luva nas habilidosas mãos da imprensa, que exerce toda sua pressão sobre os ombros da polícia e transforma cada assassinato num espetáculo de horror.

O que move o Copiador?
Qual sua ligação com o cardeal?
Por que ele só mata aos sábados?

É com orgulho que digo que os autores brasileiros de suspenses policiais, principalmente os que estão despontando, estão dando um show! Demonstram conhecimento sobre o que estão escrevendo e não apenas se baseiam no que a TV ou o cinema retratam sobre o misterioso mundo investigativo. E o mais curioso é que foi escrito por dois jornalistas, mas parece que você está lendo fatos narrados por típicos policiais. Vide Júnior e Carllos Santos também expõe com sinceridade a antipatia mútua entre policiais e imprensa e como esta, quando bem manipulada, ao invés de ser uma pedra no sapato da polícia, pode ser de grande ajuda na solução de um crime complexo.

O livro te prende do início ao fim, não dá vontade de parar de ler, porque a trama é bem amarrada, sem discrepâncias, enfim... colocou muito nome bom e antigo pra trás, na minha opinião. A obra é consistente, de acordo com a nossa realidade e retrata o trabalho da polícia civil paulista. Se o leitor comparar com o livro Orgasmos Fatais, por exemplo, conseguirá perceber com nitidez a diferença entre os investigadores paulistas e cariocas. Igualmente competentes, mas com suas peculiaridades. E isto, tanto no que diz respeito à metodologia de trabalho, quanto ao comportamento. Achei bastante interessante confrontar tais aspectos.

Eu coloco este livro e o da Bianca Carvalho - Jardim de Escuridão - como sendo os melhores livros policiais (thrillers) de escritores pátrios que li até o momento. São estilos bem diferentes, mas ambos de excelente qualidade. Infelizmente, não vemos a mídia dar o devido prestígio a obras tão boas e, pra piorar, alguns leitores ainda torcem o nariz para os nacionais, sem ao menos dar uma chance para a leitura. Só têm a perder com seus pré-conceitos infundados.

Os autores de Investigação Criminal - O Assassino do Sétimo Dia - têm bagagem e fizeram um excelente trabalho, que merece se tornar um best-seller e até mesmo um roteiro de cinema. Por que não, né?

sábado, 29 de outubro de 2011

OS ASSASSINATOS NA RUA MORGUE & A CARTA ROUBADA - EDGAR ALLAN POE




AVISO:


ESTA RESENHA CONTÉM SPOILER!!! NÃO LEIA, CASO DESEJE CONHECER A OBRA POSTERIORMENTE!


Não sou chegada a fazer resenhas contendo SPOILER, mas neste caso, para que meus comentários fizessem sentido, fui obrigada a quebrar minhas próprias regras.

Este foi o primeiro trabalho de Edgar Allan Poe que chegou às minhas mãos. É um livro pocket e que contém somente dois contos, cujos títulos estão referenciados acima. Perfeito para quem não quer perder horas em leituras muito elaboradas e longas. Mas, mesmo sendo um livro de pouco mais de 90 páginas, o escritor americano consegue ser profundo em alguns trechos. Eu achei isto bem interessante, pois sair do superficial em contos, especialmente policiais, não é algo tão fácil de se fazer.

Agora começo o SPOILER:

o primeiro conto me agradou mais e retrata dois possiveis assassinatos de mãe e filha, que moravam solitárias em uma casa de 4 andares na Rua Morgue. Vizinhos ouvem gritos e vozes estranhas às das moradoras e correm para ver o que ocorre com tão pacatas mulheres. Eles conseguem distinguir a voz áspera de um francês (e nisto as várias testemunhas são praticamente unânimes) e outra voz estridente, de um estrangeiro, porém proferindo palavras impossíveis de serem compreendidas. E em relação a esta segunda voz, as diversas testemunhas, reparem, de nacionalidades também diferenciadas, entram em conflito ao definirem-na: cada um sugere que a voz seja de determinada nacionalidade (italiana, russa, inglesa, etc), porém sequer conhecem o idioma ao qual se referem. E isto já me chamou atenção!

Então, ao chegarem ao 4º andar, se deparam com o horror: o quarto todo quebrado, nenhum objeto de valor subtraído e o corpo da filha atolado em uma chaminé, tendo sido necessária a força de várias testemunhas para conseguirem retirar o cadáver dali. No quintal, o corpo mutilado da mãe, com a cabeça quase cortada completamente, que cai quando tão somente mexem no cadáver. Fora o clichê das antigas tramas policiais: o quarto trancado por dentro, janelas trancadas e sem os suspeitos em seu interior... Agatha Christie adorava isto também. Mas, para tudo sempre existe uma explicação racional e Allan Poe tem este traço marcante: a lógica!

Mas, logo em seguida, outra coisa me chama atenção (página 29/30) e vou transcrevê-la, para entenderem melhor:

Nunca um assassinato tão misterioso, tão intrigante em todos os seus pormenores, foi cometido antes em Paris - se é que se trata de um assassinato. (negrito meu).

Claro ficou pra mim, que o escritor deu uma pista importantíssima para o leitor. O que poderia ser aquela cena de horror, senão assassinatos? Suicídios? E quem teria enfiado o corpo de cabeça para baixo da filha, em uma chaminé super estreita? A velha senhora? Se para retirar o cadáver foram necessários cerca de 3 homens... Não creio! A filha teria matado a mãe e depois se matado? Seu espírito teria escondido o próprio cadáver na chaminé? Não né! E as vozes que as pessoas ouviram?

Então, óbvio que as duas mulheres foram mortas brutalmente. Mas por que o autor põe em dúvida a questão assassinato? Imediatamente me recordei das aulas de Direito Penal, onde aprendemos que o homicídio só pode ser perpetrado por um ser humano contra outro ser humano. Depois disto, algum de vocês conseguiu desconfiar do que o autor, e agora esta signatária, falam? Vocês não acreditam que ele fez aquele comentário à toa, não é? Se elas não se mataram e tampouco foram vítimas de acidentes domésticos... (fora que ele comenta sobre a força brutal e ferocidade dos crimes, que não se enquadraria no mais pervertido dos criminosos), quem ou o quê lhes ceifou as vidas? Naquela época não existiam andróides! Um animal, não é mesmo? E eu acertei em cheio... A voz estridente era de um orangotango feroz que escapara de seu dono. Este, um marinheiro, havia perseguido o animal e presenciou as mortes, nada podendo fazer.

Gostei, pois foi original. Embora, na minha opinião, Allan Poe tenha sido bonzinho demais ao dar de bandeja a autoria do crime para o leitor. Ao contrário de Agatha Christie, que praticamente torna isto impossível, ele foi camarada demais, rsrsrs.

Em relação ao segundo conto, eu pude ter certeza de algo que suspeitei desde o anterior: os americanos adoram menosprezar os internacionais; eles sempre são os melhores, aqueles que enxergam até o que o deus Hélio não consegue! O personagem Dupin, que é o curioso que sempre desvenda os mistérios e deixa o Chefe de Polícia com cara de bobo, volta e meia dá um jeito de dizer que a polícia parisiense é astuta, que utiliza de excelentes meios e técnicas, mas... e aí ele, numa nítida técnica do sanduíche, ele simplesmente coloca os policiais parisienses como ingênuos. E ele, claro, o f**ão! Allan Poe era americano e, posso estar enganada, percebi em vários pontos (e olha que é um conto, hein!), seu preconceito, ou melhor, ares de superioridade em relação aos europeus. Não curti isto.

Esta segunta trama, resumidamente, é sobre uma carta furtada por um político, que o deixa em vantagem sobre uma senhora pública e ele começa a chantageá-la. Os argumentos de Dupin, ao revelar como conseguiu recuperar a carta, têm lógica, mas mesmo assim eu achei que ele forçou um pouco a barra. Foi meio sem sal.

Algumas pessoas não gostam de escritores que narram em primeira pessoa, como Edgar Allan Poe faz, mas isto pra mim é indiferente. Eu até que gostei de sua narrativa, embora pareça mais um monólogo em certas partes. Quando Dupin começa...

Agora, um alerta aos tradutores, que eu vou fazer sim, pois quando é um escritor nacional e desconhecido que comete o mesmo tipo de deslize, só faltam crucificar a criatura. E sabemos que o sucesso de obras internacionais, também se deve, em parte, a traduções de qualidade. Página 67:

O endereço, contudo, estava voltado para cima, e estando o conteúdo escondido, a carta passou desapercebida. (negrito meu).

O correto seria "despercebida", que significa: "que não se viu ou não se ouviu".; a palavra utilizada significa outra coisa: "desprevenida, desprovida".

Não posso formar, ainda, uma opinião completa sobre o escritor, pois teria que conhecer mais textos seus. Porém, considerei estes dois contos boas leituras, com as devidas ressalvas. No Skoob, avaliei com 3 estrelas, pois apesar de ter gostado, não me impressionou tanto. Mesmo assim, vale à pena conferir!

sábado, 22 de outubro de 2011

Uma romancista policial romântica é a Bianca Carvalho!


Romance policial? Pois é! E que surpresa boa!

Digo isto, porque quando comprei Jardim de Escuridão na Bienal do Livro 2011, foi a própria escritora quem fez um breve resumo de sua obra. Ela explicou que o livro era um misto de romance, mistério, drama, uma dose de magia e de suspense. De cara me agradou, principalmente por causa do suspense. Mas, mesmo assim, ao olhar a belíssima capa, eu imaginei que a trama giraria mais em torno de um romance (no sentido estrito da palavra).

Que nada! rsrsrs... Bianca Carvalho esqueceu de mencionar naquele dia, que sua obra é um genuíno romance policial, sim! E dos bons!

A história começa com o falecimento de Lolla e esta deixa cartas para suas três netas. Porém, não são cartas comuns, já que as mulheres desta família, todas elas de alguma forma, têm dons especiais. E aqui, Bianca descreveu a verdadeira magia (ao menos no meu modo de compreender): o dom que nasce com a pessoa e que não precisa de rituais mirabolantes para se manifestar.

Neste primeiro volume da trilogia a protagonista é a neta mais velha, Faith, uma conhecedora das flores e de seus mistérios. É alguém que sofre por acontecimentos recentes e precisa reencontrar o caminho para a felicidade.

Nesta busca, Faith se vê envolvida em uma investigação de mortes seriais de mulheres, cujo assassino é apelidado como "Assassino das Noivas." No início, ela não consegue entender como o seu interesse e empenho naquelas mortes misterioras, poderiam alterar o seu destino. E é neste ponto que a escritora mostrou seu talento: amarrou muito bem os detalhes e tudo faz sentido no final.

Bianca é uma escritora jovem, mas denota muita maturidade. Não só pela sua escrita limpa e bem estruturada. Ela consegue construir uma trama policial consistente e sem discrepâncias, o que posso afirmar, é difícil. Pois, ao contrário do muitos possam imaginar, histórias policiais exigem um conhecimento técnico, o mínimo que seja. E ela tem muito jeito pra coisa. Digo isto, não só como escritora de suspenses policiais, mas também como profissional atuante na área penal.

Além disso, a autora parece conhecer dilemas que os policiais têm que enfrentar constantemente, tais como: noites de sono perdidas no trabalho, temperamentos oscilantes em razão de só lidarem com coisas malignas, pressão da sociedade e também a má vontade predominante que as pessoas "de bem" têm em dizer o que sabem... Como um amigo meu, da segurança pública, costuma dizer: as pessoas comuns exigem que os policiais sejam super-heróis, mas ninguém quer lhes dar super-poderes"... Bianca Carvalho, de uma forma sutil, traduz bem esta sentença.

E todo o mistério criado na resolução dos crimes, é suavizado por uma história de amor. Mas sem adoçar demais, pois não existe um abuso de emoções e o drama é na medida certa.

Também gostei de que, embora seja uma trilogia, este volume teve uma conclusão. A pior coisa, na minha opinião, é quando você fica querendo saber o fim daquilo e tem que aguardar o próximo volume. No caso da obra de Bianca Carvalho, embora haja uma continuação, houve um fim. A expectativa agora é em relação às outra personagens. Tranquilo pra mim, que consigo esperar neste caso.

Não costumo sair tecendo elogios simplesmente porque o autor é nacional e/ou porque o conheço... ou ainda porque ele ou ela podem ler o meu livro e aí haver uma "troca de boas resenhas". NÃO MESMO! Eu só elogio porque gosto e quando existem pontos negativos a serem apontados, eu faço (e gosto que façam o mesmo comigo)... ou então, quando percebo que o escritor pode se ressentir, prefiro deixar quieto. Mas Jardim de Escuridão foi, de fato, uma leitura excelente pra mim e não vou ficar inventando coisas negativas só pra parecer imparcial, pois não há necessidade disto. Estou sendo bastante imparcial. A obra me agradou muito e pronto! Posso afirmar que, dos poucos livros de colegas pátrios que conheci até agora, este está liderando!

Parabéns Bia! Te desejo muito sucesso, porque você merece! Quem tem talento de verdade merece. Jamais duvide disto!